Sorte

0 comentários
Sorte. Não era uma palavra em que pensava com frequência para descrever a própria vida, mas ali, em silêncio, perdida naquele abraço, foi nisso que pensou. Que sorte.

Sorte de quê? Não soube dizer. Soube apenas que o sentimento lhe causou um frio na barriga, um tremor inexplicável e incontrolável nas mãos. Tinha sorte, talvez, por sentir, e saber que sentia -- mas que sorte era aquela se trazia sentimentos tão conflitantes, de querer ficar e fugir, querer rir e gritar, querer se fechar e se abrir? Que sorte era aquela, que vinha sempre com o medo?

Mas medo de quê?, se perguntou, e também não soube a resposta. De nada e de todas as coisas ao mesmo tempo. De recomeçar, sim, mas de encontrar o fim antes de entender o começo. De partir seu coração. De partir.

Suspirou no desenlace, guardou seus temores e entregou seu sorriso. Não dava para viver com medo do mesmo jeito como não dava para viver esperando a sorte chegar. Faria sua própria coragem, assim como agarraria sua própria fortuna. Rica já era; de neuras, sim, e de temores, talvez, mas também de sorrisos e encantos e desejos. Não podia calar a voz da consciência, mas podia deixar falar o som do coração.

O que tivesse que ser, seria.

Segure

1 comentários
Segure a minha mão. Você prometeu que seguraria a minha mão. Não solte -- eu não saberia o que fazer se você a soltasse. E se eu sair voando por aí, sem rumo? E se eu não tiver para onde ir?

Presto atenção aos seus lábios se mexendo, ouço o som da sua voz, mas não processo as palavras. O que você quis dizer quando disse que nada mudaria? Tudo já está diferente. Você me prometeu que estaria aqui para sempre, que não me deixaria ir, mas está me deixando. Está indo embora sem nem um beijo de adeus.

Segure a minha mão, tento gritar, mas não posso. Não posso te impedir de ir. Não posso te pedir para ficar.

Vejo você me dando as costas, um passo de cada vez, e prendo a respiração. Um segundo, dois, depois dez. Solto o ar. Você não vai voltar dessa vez. O que você quis dizer quando disse que não iria a lugar algum? A distância é relativa, eu sei. Nós nunca realmente fomos próximos, não como mais importa. Se é que importa. 

Fique comigo, penso, mas não digo. Jamais diria. Não posso te fazer escolher. Não tenho direito de te pedir nada. Pessoas não pertencem a pessoas, eu te digo, em vez disso, uma citação de um dos meus filmes favoritos. Sei disso. Acredito nisso.

Mas agora, só agora... não consigo fazer parar de doer.

O Leitor

0 comentários
Ele abre um livro. Embarca num mundo. Se perde nas palavras.

Ele não sabe que, do outro lado, uma vida acabou de ser salva.

Ele se distrai por um tempo. Ri de piadas que só ele entende. Chora com sentimentos que não são seus.

Ele não sabe que, do outro lado, alguém voltou a respirar por sua causa.

Para cada livro, uma vida. Para cada página, um respiro. Para cada história, uma esperança.

Talvez ele não saiba, mas em algum lugar, alguém que nunca o conheceu o agradece todos os dias.

E talvez ele também não saiba, mas aquelas páginas, aqueles livros, aquelas histórias -- nada existiu antes dele. Eram folhas em branco, que só foram preenchidas quando foram lidas.

Ele talvez não saiba, mas tem alguém, em algum lugar, que morreu por aquela história. E morreria de novo e de novo, e se der sorte, morrerá muitas outras vezes ainda. E tudo bem, pois não existe mais autor. Não tem espaço para um terceiro elemento nessa relação.

É uma via de mão dupla. O leitor e o livro, o livro e o leitor.

E, para nós, isso basta.
 
Larissa Siriani | Copyright © Design por Naiare Crastt • Mantido pelo Blogger