Nada é para sempre

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Eu sempre tive medo de ficar sozinha. Esse temor constante me acompanhou em vários estágios da vida em muitas formas diferentes, mas sempre se resumia à mesma coisa: ser deixada para trás, ser esquecida de alguma forma. Ver o mundo seguindo em frente enquanto ainda estou parada no mesmo lugar. Essa semana, esse assunto veio à tona na terapia, enquanto eu tentava explicar que meu maior medo não era que alguém me magoasse, que alguém me decepcionasse. Era abrir meu coração para alguém que não pretende ficar. Deixar entrar alguém que, mais tarde, vai sair. Porque todo mundo vai embora, sempre. A vida é inconstante demais, e e, taurina como sou, gosto da previsibilidade.

Conversa vai, conversa vem, falamos sobre todas as pessoas que haviam entrado e saído da minha vida, de amigos a amores, de professores a entes queridos. Num dado momento, ela me perguntou se eu aceitaria algumas dessas pessoas de volta, se elas quisessem voltar atrás. A respota foi rápida: não, não aceitaria. Não por rancor, nem por mágoa, mas porque não sou mais aquela pessoa. Não tem mais espaço na minha vida para alguém que ficou no meu passado.

Foi quando eu me liguei.

Todas as pessoas que estão na sua vida entraram nela por um motivo, e aquelas que saíram dela também se foram por uma razão. Pessoas não pertencem a pessoas -- não podemos obrigar ninguém a ficar, e, sinceramente, gostaríamos de prender alguém a nós contra a sua vontade e natureza? Todo mundo que passa pela gente o faz na hora exata e pelos motivos exatos, por mais que a gente não saiba qual é. Aprendemos uns com os outros, e quando o aprendizado cessa, é hora de partir. É a lei da vida. 

É difícil aceitar isso às vezes. Se você for como eu, vai se apegar às pessoas e sofrer com as partidas, porque mudanças às vezes são dolorosas. Mas no final, você percebe que, por mais que algumas pessoas não estejam mais presentes no seu dia a dia, elas ainda estão na sua vida: estão nas coisas que você faz, na maneira como você fala, nos aprendizados que você carrega, nas lembranças boas que você leva junto ao coração. A presença física é só um detalhe. No fim das contas, nada é para sempre, mas tudo é eterno, de um jeito ou de outro.

respire

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segure minha mão
respire fundo
não chore
mas tudo bem chorar também
já contou até dez?
conta comigo
um dois três
um dois três
fale comigo
me distraia
respire fundo
conte até dez
abrace a mim
abrace a si
abrace a vida
não solte
e mais uma vez
um dois três
um dois três
está me ouvindo falar?
sou tudo que você precisa escutar
respire fundo
já está passando
vai ficar tudo bem
não precisa chorar
estarei sempre aqui com você
é só lembrar de respirar

o curativo

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“Eu sei o que você está tentando fazer,” ele diz.

“E o que é?”, ela diz.

“Está tentando me afastar,” ele diz. “Mas não vai dar certo.”

Ela não responde. Talvez não conseguiria, mesmo se tentasse. Ele tem razão, e ela sabe. Sempre soube.

Porque é isso que ela faz. Ela afasta. Ela se esforça para tal. Em gestos e palavras, em omissões e na presença. Ela afasta.

Mas que outra opção ela tem? Pode esperar, quem sabe, esperar pelo final que ela sabe que está vindo. É o mesmo toda vez. Ele irá embora, e ela vai ficar, seu coração na mão ainda batendo, sangrando após uma punhalada gentil. Nenhum deles tem intenção de feri-la, mas todos sempre o fazem no final. Afastá-los é uma questão de piedade, para com eles, mas principalmente para consigo mesma. É tudo que ela tem. A última chance de controle.

Contudo, ela nada revela. Descobriu há muito tempo que as pessoas não querem realmente ouvir como os outros se sentem; querem apenas saber se isso as afeta. Talvez, pensa ela, se dissesse, seria mais rápido. Indolor. Talvez ele fosse embora agora mesmo.

Mas ainda não. No fundo, ela é covarde — quer tirar o curativo um pedaço por vez. Ainda não. Só mais um pouco. Só mais uma ferida e depois, quem sabe, ela puxe tudo de uma vez.
 
Larissa Siriani | Copyright © Design por Naiare Crastt • Mantido pelo Blogger