[CONTO] Te Ver De Novo - Parte V

Antes, leia:

Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV

Comemos. Percebi que os assuntos triviais estavam se esgotando tão rapidamente quanto o nosso conforto em mantê-los. Lá pela metade da refeição, já não havia mais o que falar. Eu tinha acabado com o meu estoque de sorrisos falsos e o meu nervosismo estava cada vez mais evidente. E mais do que nunca, eu precisava de um cigarro.
Quando o silêncio abateu-se sobre nós de novo, notei que era hora de descobrir porque estávamos ali. Eu esperava sinceramente que ele me dissesse sem que eu precisasse perguntar, mas Cadu parecia menos inclinado a começar o assunto do que eu. E depois de tanto sofrimento e ansiedade, eu não ia simplesmente levantar e ir embora sem descobrir porque tinha ido até ali, pra começar. Respirei fundo, afastei meu prato e perguntei:
- Cadu, por que você quis me ver?
Ele pareceu ao mesmo tempo surpreso e tranqüilo com a pergunta. Como se já a esperasse, mas não imaginasse que eu fosse fazê-la agora. Ele também afastou o prato e respondeu, calmamente:
- Faz anos que eu não te vejo, Rafa. Queria saber de você.
- Você tem o meu telefone. Podia só ter perguntado.
- Não, não podia. – sua resposta simples e direta me pegou desprevenida. Cadu chegou mais perto, pondo os cotovelos sobre a mesa e me encarando diretamente nos olhos por um bom tempo antes de concluir – Eu precisava te ver, Rafaela.
- Por quê? Depois de todo esse tempo, e de tudo que aconteceu, eu achei que...
- Achou que eu tinha te esquecido?

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- Achou que eu tinha te esquecido? – ele riu, do outro lado da linha.
Eu queria rir junto. Queria fazer alguma piadinha engraçada, queria pelo menos soar normal. Mas não conseguia. Eu não sabia nem como ainda estava respirando.
Mal tinha acreditado quando ele disse quem era. Depois de todos aqueles anos, vinha ele me ligar. O Cadu, de todas as pessoas.
- Não, não, claro que não. – menti.
Conversamos por alguns minutos sobre coisas sem importância. No fundo, só queria saber por que ele tinha me ligado, por que estava mexendo naquilo de novo. Então ele lançou a pergunta que ia mudar toda a minha vida perfeitamente reestruturada:
- Escuta, você não quer almoçar comigo um dia desses? – ele soava perfeitamente natural. Como se fossemos bons amigos, que tivessem se visto há menos de um mês. Não ex-namorados que não se falavam há quase cinco anos.
- Er... sim? – respondi, sem um pingo de certeza. E quando dei por mim, já tinha um encontro marcado.
Um almoço. Com ele.
Mesmo me soando completamente insano e potencialmente perigoso, por que as borboletas insistiam em trepidar no meu estômago?

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- Não. – falei, séria. Minha voz tremia, falhava – Só achei que você não quisesse mais me ver.
- Por que pensou isso? – Cadu me perguntou, e eu revirei os olhos.
- É sério isso? – ele permaneceu impassível. Tomei mais um gole de ar, subitamente sem fôlego – Por causa de tudo, Cadu. Por causa do nosso passado, e de tudo que a gente sofreu durante aqueles anos.
Mentalmente, me corrigi: tudo o que eu fiz a gente sofrer durante aqueles anos. Mas não estava pronta pra ser assim tão aberta. Se começasse a escancarar a ferida, não ia demorar pra que eu começasse a chorar.
- O passado ficou pra trás, Rafaela. E eu não guardo nenhuma mágoa de você. – Cadu me surpreendeu ao dizer.
Engoli isso em seco por um minuto. Ele não guardava mágoa? Como isso sequer era possível? Por anos, tudo o que eu fiz foi me ressentir de toda a dor e sofrimento que tínhamos infligido um ao outro. Foram três anos, quatro meses e treze dias de pesadelos contínuos, de momentos horríveis que abalaram e suprimiram tudo o que tínhamos de bom. E ele vinha me dizer que não guardava ressentimentos?
- A gente teve muitos momentos bons pra compensarem os ruins. – ele continuou – Você é uma parte importante da minha vida. A gente se afastou, sim, mas as coisas mudaram. A vida mudou. Eu e você mudamos. Não tem motivo pra continuarmos sem nos falar.
- Eu só... – pigarreei. De repente a minha voz tinha sumido – Achei que você não fosse me perdoar pela última vez.
Ele não respondeu. Eu não esperava que ele respondesse. Baixei a cabeça.
- Eu nunca me perdoei. – completei, tão baixo que não achei que ele pudesse escutar.
- Eu sempre vou te perdoar. – ele me respondeu, igualmente baixo.

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