O Diário (nada) Secreto 2 - Capítulo 7

Conheça O Diário (nada) Secreto II

Capítulo 1 - Amigas para sempre

Capítulo 2 - De volta pra realidade

Capítulo 3 - Perturbando a paz

Capítulo 4 - Eu tenho que te contar uma coisa

Capítulo 5 - O que acontece na festa...

Capítulo 6 - ...fica na festa?


Capítulo 7 – Um Final Infeliz

Eu saquei na hora que estava ferrada. Que tudo estava ferrado. Principalmente, eu saquei que, em menos de 24 horas, se a Lana não contasse, o Diego ficaria sabendo por outra(s) boca(s) que ele tinha sido chifrado.
Pra começo de conversa, eu fiquei completamente sem ação. Tive vontade de voltar e contar pro Antônio que a Ariane tinha escutado tudo, mas ele provavelmente não iria entender o quanto a coisa estava feia. Decidi contar pra Lana, mas simplesmente não sobrou tempo nem espaço – o sinal já havia tocado antes de eu chegar ao pátio e a Marina estava andando grudada a ela.
Vi o Diego, em toda a sua nerdice e inocência, copiando a matéria que o professor passava como se a sua vida dependesse disso, e me perguntei se ele poderia ter um ataque de fúria quando descobrisse. Ele não parecia do tipo que pudesse sair por aí socando todo mundo – estilo Daniel, por exemplo – mas nunca se sabe. Os quietinhos são os piores, minha mãe costumava me dizer.
Acho que eu saberia em breve.

Mais tarde, enquanto eu lutava com a internet discada, a Lana resolveu ficar online. Aproveitei a deixa.

Lo.Li.Ta diz:
Lana, vc ta ai?

Lana diz:
To sim. Tudo bem?

Lo.Li.Ta diz:
Não, não ta tudo bem! Aconteceu uma merda colossal hoje!

Lana diz:
O que foi?

Lo.Li.Ta diz:
O Antônio foi me procurar hoje lá na biblioteca. Ele sabe que eu sei... do que rolou lá na festa.

Lana diz:
Ah, que bom. O que mais ele disse?
Lo.Li.Ta diz:
Pediu pra eu não contar nada pra ninguém e aquela história toda. Mas eu nem vou precisar abrir minha boca.

Lana diz:
Eu estou pensando em como contar pro Diego, calma.

Lo.Li.Ta diz:
Então pensa rápido.

Lana diz:
Por quê?

Lo.Li.Ta diz:
Porque a Ariane estava no corredor do lado e eu tenho certeza de que ela escutou tudo.

Vários minutos se passaram sem que nada acontecesse. A janelinha do messenger não piscou, e eu imaginei que a Lana estivesse tendo uma síncope ou algo parecido. No lugar dela, eu já estaria gritando e pedindo socorro. Ou até coisa pior.
Eu estava prestes a perguntar se ela estava bem, ou pelo menos se estava viva, quando a janelinha tornou a piscar.

Lana diz:
Fudeu, Lolita. Puta merda, fudeu!

Pra Lana dizer tantos palavrões numa única frase, é porque a situação está grave mesmo. Só me lembrava de ouvir tantos palavrões saindo dela quando embebedaram o Diego na sua festa de 15 anos. E ela estava realmente brava.
Dava pra se ter uma idéia de como ela devia estar naquele exato momento.

Lo.Li.Ta diz:
É melhor vc contar logo pra ele, antes que ele fique sabendo por outra pessoa.

Lana diz:
Por várias outras pessoas, né? Cacete, não importa se eu disser pra ele ou não! Amanhã todo mundo vai estar chamando o garoto de corno!

Eu não tinha argumentos contra isso. Não tinha como impedir uma catástrofe.

Lana diz:
Vou ligar pra ele.

Lo.Li.Ta diz:
Vai terminar com ele por TELEFONE?

Lana diz:
Se eu esperar até amanhã, ele não vai me escutar!

Lo.Li.Ta diz:
No mínimo vai até lá, Lana! É uma puta falta de respeito fazer isso com ele!

Lana diz:
Eu não vou conseguir olhar na cara dele, Lolita! Vc sabe como já tem sido difícil esses dias! Terminar como o Diego olhando pra ele vai ser como... sacrificar um cachorro!

Lo.Li.Ta diz:
E fazer isso por telefone é realmente um ótimo jeito de resolver as coisas, né?

Ela não respondeu. Fiquei puta só de considerar a imensa falta de consideração que aquilo era. Fiquei ainda mais surpresa porque não imaginava que a Lana fosse tão fria àquele ponto. O Diego merecia mais que isso.

Lana diz:
Então vai comigo até lá.

Lo.Li.Ta diz:
Lana, desculpa, mas isso não é um problema meu. É vc quem tem que resolver.

Lana diz:
Não to te pedindo pra resolver porcaria nenhuma por mim. É só que... sei lá, acho que não vou conseguir sozinha.


Lo.Li.Ta diz:
E vc quer que eu fique lá olhando?

Lana diz:
Só me acompanha até lá, Lolita, por favor!

Eu não agüento um pedido de um amigo desesperado. E acho que a essa altura todo mundo já percebeu que eu me presto a todo tipo de papel ridículo pra ajudar um amigo que está precisando – Suellen e sua mania de me fazer de vela que o diga! Por isso, não consegui formular uma resposta que me fizesse escapar da responsabilidade sem ficar com remorso.

Lo.Li.Ta diz:
Fica pronta que já, já eu chego ai.

Desliguei o computador e fui correndo trocar de roupa.
Deus, por que eu?

Eu já devo ter dito isso umas milhares de vezes, mas mesmo assim, acho que é importante frisar pra não me esquecer:
Eu SEMPRE, sem-pre, me arrependo das coisas que estou fazendo. Enquanto as estou fazendo.
E isso tem tudo a ver com o fato de que eu geralmente me presto a favores e papéis a que nenhuma pessoa normal se prestaria. Tipo, sinceramente, me digam vocês: quantos idiotas vocês conhecem que acompanham a amiga na hora de ela terminar com o namorado?
Isso é tão incrivelmente covarde que eu nem acredito que fiz parte disso.
De qualquer modo, a Lana estava histérica quando me encontrei com ela no ponto de ônibus. Estava trêmula, com os olhos marejados, e parecia que tinha visto um zumbi fantasiado de fantasma. Sua pele morena estava até um pouco verde. Por um instante, achei que ela fosse vomitar.
Eu tinha ido à casa do Diego umas duas vezes desde que eu o conhecia – o que devia contabilizar uns seis anos no total, uma vez que estudávamos juntos no Santa Rita desde que eu estava na quarta série. Não me lembrava onde ficava, nem como era. Mas senti que estávamos chegando quando a Lana agarrou o meu braço e começou a soluçar.
Desse jeito, pensei, o Diego ia pensar que alguém tinha morrido. Antes de morrer também. Porque eu tinha certeza de que só sairia um coração partido daquela história inteira.
Lana deu sinal pra descermos, e a essa altura eu já sentia que todo mundo estava olhando pra gente. Morria de vergonha – e de arrependimento profundo, é claro – enquanto andava com ela em direção à casa do Diego. Considerei a possibilidade de largá-la ali e sair correndo. Eu não queria ter que presenciar nada daquilo.
Mas sou uma boa e idiota amiga, e fui até o fim. Quando tocamos a campainha de uma casa de portão verde-escuro e muros verde-claro, minha cara já devia estar quase tão boa quanto a da Lana. Tive essa impressão principalmente quando Diego veio abrir a porta.
Ele estava usando uma camiseta surrada com estampa do Coiote explodindo alguma coisa, e uma bermuda estranha. O cabelo estava bagunçado, e ele estava com aqueles óculos gigantes na cara. Nunca tinha visto o Diego mais mal arrumado. Daquele jeito ele parecia quase...
Bonito.
Quando ele nos viu, imediatamente pareceu desesperado e sem ação. Abraçou a Lana primeiro, e me olhou por cima da cabeça dela – ele era bem alto – com aquele ar de “mas o que foi que aconteceu, porra?”
- Precisamos conversar. – ouvi a Lana dizer, baixinho. A preocupação no rosto dele só aumentou, e ele nos colocou pra dentro.
Na verdade, “ele nos colocou pra dentro” foi só uma forma gentil de dizer que nós todos entramos. O que realmente aconteceu foi que os dois entraram e me largaram sozinha. Então eu fechei o portão, girando a chave que Diego nem tinha tirado da fechadura, e segui até a porta da sala, entrando sem ser convidada numa casa que eu não conhecia.
Me senti super desconfortável uma vez do lado de dentro, porque tudo estava tão impecavelmente arrumado que nem parecia morar gente ali. Os dois sofás brancos estavam bem arrumados, a estante em frente a eles tinha todos os CDs e DVDs no lugar e brilhava como se alguém tivesse acabado de limpa-la. No centro havia uma mesinha baixa com um vaso de rosas que a minha mãe iria adorar. E nas paredes havia quadros lindos de paisagens e natureza morta, além de crucifixos e imagens de Jesus.
Na realidade, o único vestígio de haverem humanos ali era a televisão ligada. Mas estava no Discovery Channel, então eu desconsiderei isso como uma manifestação de vida.
Sem muita escolha, me sentei num dos sofás. E esperei.

Sabe aquelas coisas que você acha que nunca vão acontecer? Todo mundo tem uma lista de fatores improváveis. Tipo “nunca vou ser seqüestrado” ou “meus pais nunca vão se separar”. Coisas que a gente acha que nunca podem acontecer, porque são simplesmente muito improváveis para fazerem parte da nossa realidade.
Lana e Diego separados faziam parte da minha lista de fatos impossíveis de acontecerem. Eles namoravam já havia dois anos, e antes disso, ficavam sempre. Basicamente, a história dos dois remontava anos, e eu tinha estado lá compartilhando disso tudo.
E agora eu estava tentando assimilar o fato de que eles haviam terminado.
Eu sei, é exagerado. Mas, quando a Lana desceu, chorando desesperadamente, a minha sensação foi de estranheza, então de pena. A sensação toda se agravou pelo fato de o Diego não ter descido com ela. Lana pegou as chaves, destrancou o portão e nós saímos sem dizer uma palavra.
No ponto de ônibus, ela se agarrou a mim e se acabou de chorar. Eu sabia que ela tinha uma – ou talvez todas – parcela de culpa no fim do namoro, mas acho que estava sinceramente triste. No fundo, ela gostava e se importava com o Diego. Eles tinham muita história juntos. E nada disso importava mais agora.
Quando subimos no ônibus, Lana estava mais calma – mas inchada o suficiente pra todo mundo olhar pra ela como se ela fosse um ET. Meu celular tocou, e vi o nome da minha mãe piscar no visor. Bufei e atendi.
- Aonde você está, Carlota? – ela me perguntou, antes de eu conseguir terminar de dizer “alô”.
- Tive que dar uma saída, mãe. – falei, não querendo entrar em detalhes. A Lana ainda estava fungando do meu lado.
- E ligar pra me avisar, nem pensar, né? – mamãe parecia brava. Maravilha – Onde você está?
- To no ônibus com a Lana, mãe. Estamos indo pra casa dela.
- Nada disso, Carlota. Você vem direto pra casa.
- Mãe, isso é sério. A Lana precisa mais de mim do que você.
- O que foi que aconteceu?
Nesse exato momento, a Lana me cutucou e murmurou:
- Pode ir pra casa, Lolita. Acho que eu preciso mesmo ficar sozinha.
- Tem certeza? – perguntei, enquanto minha mãe falava sozinha.
- Tenho. Amanhã a gente conversa, se eu for na aula. – ela me disse. Assenti e bufei outra vez.
- Ok, estou indo pra casa. – declarei.
- O que foi que aconteceu, Carlota? – minha mãe quis saber, mas, de novo, eu desconversei.
- Até daqui a pouco, mãezinha.
E desliguei antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.

Cheguei em casa super tarde, já sabendo que não teria a menor condição de ir pra aula no dia seguinte. Não era como se eu fosse perder muita coisa. A Lana com certeza não ia aparecer, muito menos o Diego. Eles eram os únicos que me interessavam no momento.
Meu celular tocou quando eu estava quase dormindo, e eu ignorei. Quando acordei, quase às dez horas da manhã seguinte, vi que tinha sido o Diego. Ele nunca havia me ligado. Devia estar precisando mesmo de mim.

É evidente que a escola inteira já estava sabendo de tudo naquele dia.
E é claro que todo mundo resolveu me ligar, ou me mandar mensagens, ou me mandar e-mails, ou me procurar no MSN. Ou todas essas coisas ao mesmo tempo.
Eu já estava ficando maluca, e ainda nem eram duas da tarde. As pessoas mal tinham chegado em casa e já estavam enchendo o meu saco, e eu não estava afim de falar sobre nada daquilo. Queria falar com a Lana e saber direitinho do que tinha acontecido. E queria ver o Diego, ver como ele estava. Nada daquilo era da conta de ninguém.
Lá pelas três horas, liguei pra casa da Lana. Quem atendeu foi o Edson.
- Oi amor. – eu disse – Tudo bom?
- Mais ou menos. – bufou – Você sabe o que aconteceu com a Lana? Ela chorou a noite inteira, não me deixou dormir.
- Eu sei, mas acho melhor ela te contar. – respondi – Ela ta aí?
- Não sei se ela ta acordada. Vou dar uma olhada.
Fiquei algum tempo esperando na linha, ouvindo passos ao longe. Então uma voz embargada e sonolenta atendeu o telefone.
- Oi, Lolita.
Era a Lana. Ela soava como quem acabou de pegar uma gripe daquelas. Ou uma pneumonia. Com leves sinais de tuberculose.
Basicamente, parecia que ela estava morrendo.
- Você parece péssima. – falei. Odeio a minha sinceridade de vez em quando.
- Eu me sinto péssima. – ela disse, fungando – O Edson disse que eu atormentei ele a noite toda, né?
- É, ele disse. Bom, eu estava pensando em passar por aí pra conversar com você. Pode ser?
- Se você não se importar de a Marina estar aqui, pode. Ela veio pra cá depois da aula.
Fiz uma careta, e agradeci por ela não estar vendo. Sim, eu me importo, eu disse mentalmente, porque ela é uma mala que se faz de amiguinha de todo mundo.
Mas não era hora de discutir minhas preferências com a Lana. Eu era capaz de suportar a Marina por algumas horas.
- Não, tudo bem. Te vejo já.
- Até.
Desliguei o telefone e então liguei pra minha mãe, pra que ela não reclamasse de ser a última a saber. Então fui me trocar e, psicologicamente preparada, fui pra casa da Lana.

Eu cheguei à conclusão de que não estava psicologicamente preparada já no meio do caminho. Eu não era muito boa em lidar com a dor dos outros. Eu já tinha agüentado muito drama e muito choro no meu ombro, mas aquilo era diferente. A Lana era diferente. E eu nunca a havia visto chorar por causa do Diego daquele jeito.
A Marina foi quem abriu a porta quando eu toquei a campainha. Ela estava descalça, e parecia meio incomodada com alguma coisa. Eu mal disse oi, passando direto por ela e dirigindo a palavra apenas pra perguntar:
- Cadê a Lana?
- Na cozinha. – ela me respondeu – Eu consegui fazer ela comer alguma coisa só agora.
Assenti, joguei a bolsa no sofá da sala, e fui pra cozinha.
Ela estava horrível. Vestia pijamas e estava cutucando um prato de miojo como se não soubesse por que ele estava ali. Os olhos dela estavam inchados e seu rosto moreno parecia um pouco pálido.
Me sentei ao lado dela, e esbocei um sorriso enquanto punha uma mão no seu ombro. A Lana fungou, e murmurou um oi, antes de pegar uma garfada de miojo, sem ânimo.
- É uma pergunta bem idiota, mas você ta legal? – perguntei, me sentindo idiota.
- Vai passar. – ela respondeu, dando de ombros – Só tenho que botar tudo isso pra fora, e ai passa.
- Ok. Então termina de comer e a gente conversa.
Ela assentiu, e continuou a comer. Precisou de mais de vinte minutos pra terminar um tantinho de miojo, porque não parecia muito disposta a engolir alguma coisa. Quando terminou, eu a fiz tomar um copo de água, e então nós subimos pro quarto dela.
Sentei ao lado dela na cama, e a Marina se sentou no chão. A Lana apoiou as costas na parede, e por um tempo nenhuma de nós disse uma só palavra. Então eu resolvi fazer a pergunta que estava entalada.
- Lana, você... – fiz uma pausa, então continuei – Você está arrependida de ter terminado com ele?
Ela deu um sorrisinho e balançou a cabeça.
- Não, Lolita. – fungou – Não, não to arrependida. Sério mesmo. Acho que foi a melhor coisa que eu fiz.
Não disse nada. Não era resposta o suficiente pra mim.
- É que eu sei o quanto tudo que eu disse machucou, sabe? – a Lana continuou – Lolita, você não tem idéia da cara que ele fez quando olhou pra mim enquanto eu contava. Parecia que ele tinha nojo de mim. E ai ele...
A Lana começou a chorar, e pôs as mãos na boca.
- Ele começou a chorar, e me disse que não acreditava que eu tivesse feito uma coisa dessas. – continuou – Acho que eu nunca magoei tanto o Diego. Ou qualquer outra pessoa. Foi horrível.
A Lana precisou de uns cinco minutos, e de vários lenços pra se acalmar.
- O Antônio me ligou hoje. – ela disse, enquanto assoava o nariz – Disse que ficou sabendo da história e quis saber como é que eu tava. – ela sorriu – Eu gosto dele de verdade, Lolita. E eu posso parecer uma vagabunda dizendo isso, mas eu não me arrependo de ter ficado com ele. Eu me arrependo só de ter magoado o Diego por isso.
- Você sabia o que estava fazendo. – falei, bufando – Eu não vou falar que concordo com você, Lana. Acho que você tinha que ter terminado com o Diego antes que a coisa chegasse nesse ponto. Só que agora já foi.
- É. Agora já foi.
Por mais alguns minutos, ninguém disse nada. A Lana recolhia as lágrimas e assoava o nariz a cada segundo. Por fim, ela suspirou, e voltou a falar.
- O Diego me ligou umas quinhentas vezes já. – falou – Mas eu não tenho coragem de atender. Acho que eu não vou conseguir olhar pra cara dele por um bom tempo agora. Eu não quero ouvir nada do que ele tem pra dizer, independente do que seja.
- Pois eu acho que você devia. – afirmei – Eu sei que não é da minha conta, Lana, e você sabe que eu odeio ficar me metendo, mas numa boa? É o mínimo que você pode fazer. Escutar, sabe? Porque eu posso apostar que você foi a única que falou quando vocês conversaram. Se ele tem alguma coisa pra te falar, você tem que escutar. Você meio que deve isso a ele.
Ela não respondeu.
- A Lolita tem razão. – a Marina disse, falando pela primeira vez em todo aquele tempo. Olhei pra ela de esguelha, sem saber se estava grata ou não por ela ter concordado – Eu sei que vai te fazer mal falar com ele, mas, Lana, se ele precisa falar, você tem que escutar. Depois de tudo o que aconteceu, Lana...
- Eu sei, eu sei! – a Lana exclamou – Só que é difícil pra mim. Eu não sei se vou agüentar escutar o que ele tem pra me dizer. Eu sei que eu agi errado, eu sei que a culpa disso tudo é minha, só que eu preferia não ter que escutar isso dele. A cara dele foi mais que o suficiente.
- Pois pensasse nisso antes. – falei – Te garanto que você não vai sofrer nem metade do que ele deve estar sofrendo.

Não ouvi mais uma só palavra da Lana sobre o assunto. Ela estava certa quando dissera que ia passar. Dois dias depois, ela já parecia recuperada, forte de novo. Eu já a via sorrir pro Antônio na sala de aula e nos corredores, mas eles nunca se falavam nem ficavam muito perto. Apesar de ela não comentar nada comigo – estava cheia de segredos com a Marina, em compensação – eu já sabia o que estava acontecendo. O fato de eles se manterem distantes só fazia com que todo mundo deduzisse a mesma coisa.
Pra falar a verdade, eu deixei de prestar muita atenção na Lana quando percebi que o Diego estava na fossa. E, sinceramente, era impossível não notar. Praticamente estava escrito na testa dele “DEPRESSÃO” em letras maiúsculas e brilhantes. Ele não chorava, mas também não falava, não comia, não prestava atenção na aula, e não abria o caderno nem uma única vez durante o dia.
Como se tudo isso não fosse suficiente, ele começou a sentar no fundo da sala. Todo mundo estranhou, mas ninguém disse nada, exceto pela Suelen, que virou pra mim, com os olhos arregalados e disse, num murmúrio “o que está acontecendo com ele?”.
Foi quando eu resolvi tomar uma medida drástica. Ok, não vou ser dramática. Eu fui pro fundo da sala um dia e comecei a me sentar do lado dele. No primeiro dia, ele nem olhou pra minha cara. No segundo, ele me deu algo que pareceu um “bom dia”. No terceiro, ele abaixou a cabeça na carteira e ficou me olhando, enquanto eu via seus olhos se encherem de lágrimas.

Assim, os dias passaram.

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