A crise e eu

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Há três anos, antes de ir pra minha própria festa de aniversário, me peguei dando desculpas pra mim mesma pra não ir. Inventei pra mim mesma que estava doente. Me convenci de que ninguém iria aparecer. Desmarquei tudo.

Ano passado, antes do meu primeiro dia de aula na escola onde eu trabalho atualmente, eu entrei em pânico. Hiperventilei. Tremia. Cheguei a chorar no ombro de uma supervisora.

Semana passada, aceitei o convite de uma amiga pra sair. Ela queria a companhia de uma de suas madrinhas de casamento (eu) para ir ao ExpoNoivas. Logo depois de aceitar, comecei a ficar nervosa. Eu teria que sair à noite. Eu teria que ir pra um lugar diferente. Eu teria que sair de casa.

Eu convivo com a ansiedade há tanto tempo que já nem sei mais onde eu termino e ela começa. Quando era mais nova, minha mãe dizia que eu era muito ansiosa, mas eu não entendia o que isso queria dizer. Só mais tarde, quando resolvi pesquisar, foi que eu entendi. Ansiedade é querer tudo e nada ao mesmo tempo. E eu preciso aprender a lidar com isso.

Tudo na minha vida é um grande evento. Cada vez que eu combino de encontrar ou de sair com alguém, isso envolve horas, dias até, de coragem que eu preciso reunir. Perdi as contas de quantas vezes eu desmarquei compromissos por razões idiotas - a maioria delas nem sequer existia. Eu as inventei pra não ter que lidar com o mundo. Pra não sair da minha zona de conforto. Pra não encarar o SE.

Porque ansiedade é um grande SE. É aquele infinito mundo de possibilidades (geralmente ruins) que eu crio na minha cabeça pra absolutamente tudo o que acontece. É iniciar uma conversa com um estranho e em cinco minutos já ter montado 6 cenários possíveis onde ele vai estragar minha vida. É ter medo de sair porque pode ser que eu não me divirta, ou pode ser que eu sofra um acidente, ou pode ser que eu me dê mal por algum motivo completamente irreal. É suar antes de uma ligação, querendo que ninguém atenda, porque o que eu vou falar se a pessoa atender? É recusar planos incríveis de última hora com alguma desculpa esfarrapada porque eu não tive tempo de me preparar, e depois me arrepender porque eu tive uma noite de bosta quando poderia estar sendo feliz por aí com os outros. Mas acima de tudo, ansiedade é deixar que medos bobos te dominem até pra mais cotidiana das tarefas, todos os dias, até que você construa uma rotina. Rotinas são boas. Rotinas são seguras. Rotinas não me fazem entrar em crise.

Essa poderia ser a parte em que eu digo que aprendi a lidar com ela, e hoje sou uma pessoa diferente, e dar um milhão de dicas sobre como lidar com isso. Bom, sinto muito. Eu não sei. Eu fiz aulas de teatro e aprendi a lidar com parte do pânico, eu quase sempre hoje me obrigo a fazer certas coisas que eu quero fazer, mas estou quase desistindo, e na maior parte dos dias eu ainda consigo pensar "Larissa, você está sendo ridícula" e tentar me acalmar. Mas há os dias em que eu choro. Há os dias em que eu passo mal de desespero. Há os dias em que eu chego em um lugar e quero sair. Há os dias em que eu minto pra todo mundo que eu conheço, só pra não ter que admitir que estou com medo - medo de sair, medo de mudar, medo de viver, medo do SE. Eu poderia falar a verdade, mas verbalizar me parece horrível. Acho sempre que ninguém vai entender quando eu disser que desisti porque estou em crise. Quem iria acreditar, afinal?

Então essa é pra você, amigo/a. Verbalizei. Da próxima vez que eu desmarcar um compromisso (e eu sei que vai haver uma próxima vez) espero que você me perdoe, pela falta e pela mentira que eu vou contar. Espero que você finja que acredite, e espero que você entenda. Não é você. Sou eu e essa maldita ansiedade. Sou eu e o medo da vida. E se, de fato, eu vencer tudo e for, espero que você saiba que é você - mas sou eu também. Sou eu dando um passo mais longe, sou eu tentando mais um pouco. E eu espero que, de alguma maneira, você possa se orgulhar de mim.

Larissa Responde #23

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Sobre amores

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O problema de já ter amado é que, depois, nenhum não-amor é o suficiente.
Não tem paixonite que te segure depois de conhecer o amor. Não adianta abraçar o travesseiro. Não tem frio na barriga de uma noite que sustente. Não há o que baste depois de conhecer o amor.
E mesmo assim você tenta. Você se joga, e busca e tenta e tenta e tenta. E quebra a cara, porque não era o que você estava procurando. Não era o que o seu coração queria. Era pra ser fogo, mas foi ao faísca, e ela se extinguiu rápido, antes que você notasse. E seu coração segue vazio, procurando, à deriva. Sem saber se um dia vai achar de novo.
O problema de já ter amado é que a busca pelo novo amor não se contenta. Não se basta. Não tem mais meio termo - ou é amor ou não é nada. E se não é nada, então não é bom o bastante.
Porque você quer algo que te preencha todos os momentos do dia, não só quando você tem companhia. Você quer se fazer transbordar, vazando alegria pra todos os lados. E por que não, você quer sofrer, sofrer como gente grande, daquela dor descomunal que só um coração partido sabe dar. Não tem o que substitua. Um coração morno esfria rápido. Você quer é superaquecer.
O problema de ter amado é que foi amor. E um dia será amor de novo. Ou ainda. Eu espero.

Sobre finais

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Uma das coisas que eu mais escuto/leio dos meus leitores quando terminam um livro meu é: mas é isso? Como assim? O que acontece depois?

Eu tenho uma relação de amor e ódio com finais. Escrevê-los é, ao mesmo tempo, o merecido desfecho e o momento mais desesperador após uma longa jornada. Tudo culminou pra esse momento. Seja livro único, seja série, todo final vem de uma cadeia de eventos - e também desencadeia outros. Afinal, o final do livro é nada mais do que mais um acontecimento na vida dos personagens.

Lembro que, durante uma aula de roteiro na faculdade, um professor nos disse que nenhum personagem começa e termina na história: eles tiveram antes e terão depois, e é importante que o autor (ou roteirista, no caso) saiba o que são esses antes e depois. Mas isso não significa que os leitores ou espectadores precisem saber.

Afinal, onde é que uma história termina? Se existem acontecimentos que vem depois do "felizes para sempre", então quem determina em que ponto ela acaba? Quero dizer, nós gostaríamos mais de um conto de fadas se soubéssemos quantos filhos a Cinderela teve ou sobre a velhice do Príncipe Encantado? Qual é o limite de conhecimento que os nossos leitores devem ter sobre os finais daquilo que leem?

Do meu ponto de vista, tudo que vem depois o fechamento do ciclo (ou seja, daquela história que você estava lendo, daquele período da vida do personagem) é dispensável. Isso não quer dizer que não exista - pode ser certeza que os autores sabem exatamente o rumo que seus personagens tomaram. Mas a menos que isso renda um novo ciclo e uma nova história, ninguém precisa saber. Não afeta o agora, a história que está em rumo, então... qual é o objetivo?

Talvez por isso sempre gostei mais de finais abertos. Não daqueles em que nada é explicado e o livro termina do nada, mas aqueles em que você fica com aquele gostinho de história inacabada, se indagações sobre um futuro que, como todo futuro, você não conhece. Na minha cabeça, há uma ideia do que eu gostaria que acontecesse a cada personagem, e talvez nada do que eu imagine seja o que o autor imaginou, mas é meu. É parte da minha relação com a história. É algo que eu construí com base na minha experiência com a leitura. É diferente de eu ter tudo mastigado e nada pra me deixar pensando. De que me adianta saber quantos filhos o Harry teve ou qual foi a profissão do Neville ou quem casou com quem? Essas informações me tiram o prazer de construir uma ideia sobre eles, real ou não. E esse prazer, me desculpem, é algo que não troco por nada.

Então, é, talvez nem todo mundo se identifique com os meus finais abertos. Talvez vocês me escrevam mais e mais recados indignados, perguntando, mas o que acontece depois?

Ao que eu, com um sorriso no rosto, vou retrucar: me diga você.
 
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