Maquiagem

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Quando eu era mais nova, minha mãe vivia insistindo que eu fosse mais vaidosa. "Você precisa se arrumar mais. É uma menina tão linda", ela dizia, tentando argumentar com a minha insistência nas camisetas largas, na falta de maquiagem e em nunca usar nada que não fosse jeans e tênis.

Naquela época, eu não via muito sentido em me arrumar. Não adiantava corrigir por fora uma coisa que vinha de dentro - eu me sentia horrível, e queria expor aquele sentimento de uma maneira não verbal. Vaidade pra mim era um conceito alienígena. Eu jamais seria uma daquelas meninas perfeitas, então pra que me dar ao trabalho?

É engraçado como o exterior reflete o interior. Comecei a me descobrir e a me amar mais ou menos na mesma época em que resolvi fazer da maquiagem o meu escudo de batalha. Primeiro, era pra encobrir as "imperfeições"; depois, pra manter a autoestima; hoje em dia, já é quase um mantra. Nos dias em que me sinto mais pra baixo comigo mesma, são os dias em que eu mais carrego na base, no pó, no batom.

E ironicamente, isso acabou se refletindo no ato de não me maquiar também. Se antes eu morreria antes de ir trabalhar sem maquiagem, hoje isso já se tornou um hábito. Precisei cobrir meu rosto pra descobrir que o amo descoberto. A manutenção desse pequeno hábito de vaidade me ajudou a lembrar que, não importa quantos produtos você passe no rosto, aquilo que você sente - em especial sobre você - sempre vai estar estampado na sua cara.

Hoje eu entendo o conselho da minha mãe. Não é sobre se arrumar. Não é sobre estar bonita para os outros.

É sobre estar bonita pra você.

Mudada?

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Digo que não sou mais aquela garota. Digo que mudei. Digo que estou diferente.

Mas estou?

Sou insegura. Sim, a carcaça é nova, o exterior está calejado. Mas não sei o quanto mudei por dentro.

Fiz aquela tatuagem pra lembrar. E eu lembro. lembro do que fiz, mas também lembro do que pensei em fazer. Semana passada. Ontem. Hoje. Seria tão fácil desistir.

E por um momento, eu desisto. Me agarro ao volante, ao edredom, à tatuagem no antebraço. Quero gritar, morrer, fugir, botar tudo pra fora em lágrimas e bile.

Mas aí vem as palavras, cravadas na pele, marcadas no papel ou soltar ao acaso pelos lábios de um estranho. E as palavras... ah, as palavras salvam.

Elas me salvam todos os dias.

É, talvez eu tenha mesmo mudado.

Só preciso acreditar.

Sobre riscos

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"Quantos taurinos são necessários pra trocar uma lâmpada? Nenhum, porque taurinos não gostam de mudanças."

Nunca uma piada definiu tanto o meu sentimento sobre a vida. Sou uma pessoa chata, rotineira. Tenho minha zona de conforto e gosto dela. Mas existe um limite do quão confortável se possa estar antes de perceber que, invariavelmente, você estará perdendo coisas incríveis da vida.

Então segunda-feira dei o primeiro passo a ser uma pessoa que tenta coisas novas indo a um bloco de carnaval. Parece pouco, eu sei. Mas eu não gosto de carnaval. Não curto as marchinhas, o sol quente e as pessoas bêbadas. Ou achei que não curtia, porque olha só, eu nunca tinha ido. Como eu ia saber?
No dia que antecedeu o bloco, fiquei me perguntando se devia mesmo. Confesso, a companhia foi o que acabou me convencendo a ir de fato, porque minha vontade real era gastar essas horas preciosas vendo Nerflix. Mas fui. E adivinhem só: até gostei.

"Melhor se arrepender de algo que você fez", um dos meus amigos me disse. Já ouvi essa frase milhões de vezes, e embora ela seja linda na teoria, na pratica é bastante diferente. Me arrepender de algo que eu fiz requer que eu primeiro tenha coragem de fazê-lo. Como já estabelecemos em outros momentos, sou uma pessoa ansiosa que tem micro ataques de pânico só pra escolher ir num lugar diferente. Tomar atitudes sobre qualquer coisa - especialmente sobre, sabe, a minha vida - não é algo que vem naturalmente pra mim.

Mas eu quero ser uma pessoa diferente. Sabe, enfrentar seus medos não se resume só a pular de bunge-jump se você tem medo de altura; inclui também passos menores como sair pra olhar a vista de uma sacada muito alta. E é isso que estou tentando fazer. Visitar mais sacadas.


Não sei até que ponto eu consigo mudar e melhorar. Talvez eu nunca seja a pessoa capaz de convidar um cara pra sair ou que consiga ir viajar sem ter tudo planejado com pelo menos dois meses de antecedência. E acho que, nas tirolezas da vida, meu nível nunca vai ser muito acima do rio. Mas o importante é me jogar - eme deixar cair.

Uma última vez

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Eu só queria te ver uma última vez. Assim, de longe. Queria passar pela padaria um dia e te encontrar na fila por acaso. Queria cruzar com você no caminho pro trabalho ou dentro do metrô. Queria ficar sem voz e perguntar sobre o tempo, saber sobre a sua família - conversa de estranhos que um dia se conheceram.
Queria te ver mais uma vez pra dar um final pra essa história inacabada. Fiquei tanto tempo esperando você voltar que percebi que nunca te falei o que precisava. Nem nunca vou falar, eu sei, mas se eu te visse... Se eu te visse, talvez eu soubesse que acabou de fato. Talvez meu coração de acalentasse na certeza de que ele já não te conhece mais, e de que aquela pessoa que ele amou um dia já não existe agora. E ai, depois daquela meia dúzia de palavras ditas em meio a uma onda de desconforto mútuo, eu conseguiria seguir de verdade, sem medo. Sem sempre me perguntar. Sem olhar pra trás.
 
Larissa Siriani | Copyright © Design por Naiare Crastt • Mantido pelo Blogger