Larissa Responde #25

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Querido aluno

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Querido aluno,

Quando entrei nesta profissão, eu não sabia exatamente em que estava me metendo. Confesso que em alguns dias ainda não sei. Acho que nenhum professor tem realmente noção do impacto que a sua profissão tem ou terá na vida daquelas pessoas que o cercam. A gente reproduz o discurso de que o professor é uma figura importante na formação das pessoas, mas não sabe realmente o nível que isso alcança antes de experimentar por conta própria.

Você, aluno, pode ser homem ou mulher, velho ou jovem. Você pode já ter passado por vários professores ou talvez essa seja a primeira vez em sala de aula. Talvez eu não seja a sua pessoa preferida no universo - bem sei que alguns dos meus professores não foram  - mas, goste ou não, estaremos na vida um do outro por algum tempo. E como todo mundo que compartilha um tempo juntos, criaremos laços.

Não, querido aluno, eu não serei sua amiga. Mas também não serei uma total estranha. Em algum momento no nosso tempo juntos, eu saberei suas dificuldades e os motivos que criaram essas dificuldades. Eu conhecerei um pouco da sua vida e você da minha. Nunca trocaremos segredos, mas teremos algum conhecimento da vida do outro que nos dará uma certa perspectiva. Não sei exatamente o que seremos. Mas, de alguma forma, seremos próximos. Próximos o bastante para que, daqui a alguns anos, eu talvez esqueça seu nome, mas nunca esqueça seu rosto ou quem você era.

Sei que no futuro você não será mais meu aluno. Você terá uma vida própria que se estenderá para fora da sala de aula, e será alguém na vida. É isso que espero de você. É isso que todos nós esperamos quando te damos aqueles exercícios extras e conversamos com você por horas para que entenda que o esforço é a única maneira de se chegar a algum lugar. Espero que, em pelo menos uma dessas conversas, você veja que eu enxergo melhor sua capacidade do que você mesmo. E é por isso que sei que você chegará longe, onde quer que escolha ir. E como todos os caminhos da vida, este também te afastará de algumas pessoas - indubitavelmente, de mim.

Mas saiba, querido aluno, que você sempre será meu aluno para mim. E, como uma professora coruja, verei suas conquistas e me orgulharei delas e de você. Porque em algum momento eu vi onde você chegaria, e confiei, e agora você também confia e chegou até lá. E nesse tempo todo, nunca seremos mais do que somos; mas é suficiente. É uma história que vale a pena ser contada. Uma relação que vale a pena ser vivida.

Eu não sei quem dos muitos rostos que já vi e quais dos muitos nomes que me vem à mente vão ler isso. Talvez você se lembre de mim aos dezessete, entrando pela primeira vez na sala de aula, ou já aos vinte e tantos, uma animadora de torcida vestida de professora. Seja quem você for - homem, mulher, jovem, velho - saiba que eu ainda me lembro. Saiba que eu sempre lembrarei. Saiba que, aconteça o que acontecer, eu me orgulho e me orgulharei de você.

Em memória de Diego Melo Brandão

A crise

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Não sei de onde veio. Não deu nenhum sinal. Ou talvez tenha dado, mas eu ignorei. Sempre ignoro. Sempre acho que não vai acontecer de novo. Que se vier, vai ser quando estou sozinha. Que não vou precisar de ajuda.

Ledo engano.

O coração dispara. Respiro rápido, porque não consigo reter o ar. Parece que vou explodir. Ar, ar, ar, onde está? Estou tonta. Meus braços formigam. Minha visão turva. Vou cair. Vou morrer. Minha boca seca. Meu grito prende. Quero chorar mas não consigo. Passo por seis emoções diferentes em menos de um minuto - uma tristeza profunda, uma raiva do mundo, uma vontade súbita de rir, uma desesperança que me toma, uma enorme vontade de sair correndo, e aquela sensação de que o mundo está me oprimindo. Que o ar se foi. Que a vida acabou. Estou morrendo.

Alguém me pergunta alguma coisa, mas não ouço. Uma mão segura a minha. Braços pela minha cintura. Um beijo no ombro. Um afago nos cabelos. "Respira", alguém me sussurra. Eu tento. Respiro fundo uma, duas, dez vezes. Estou morrendo.

Me dão água, me dão carinho, me dão alento. O tempo todo, não deixam de segurar minha mão. Meu coração desacelera. Minha respiração estabiliza. Meu corpo todo treme. Estou gelada. Estou fervendo. Estou com medo. Não sei de quê, exatamente, mas é sempre assim - aquele temor que vem de um lugar desconhecido e que nunca vai embora. Mas dessa vez, vai. Pisco. Um carro tocando nossa música preferida passa, e eu não sei mais se estou chorando pelo ataque, pela música ou pelas pessoas. Não importa.

Elas seguram firme minha mão. Não estou sozinha. Fecho os olhos e me deixo acreditar.

Estou viva.
 
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