Seja luz

0 comentários
Não chore, menina. Essa solidão vai passar. É coisa de quem carrega um oceano inteiro no coração — a gente as vezes perde a dimensão dos sentimentos. Transforma gelo em iceberg, ilha em continente.

Não se aborreça, menina. Essa dor vai passar. Não culpe o buraco negro em sua mente: lembre-se que ele suga tudo ao seu redor, mas sem os buracos negros, não existiriam as super-novas. Você não é o fim de tudo, a escuridão completa, e sim uma estrela esperando para nascer.

Não se entregue, menina. Esse amor um dia vai se encontrar. Algumas pessoas nasceram para ser planetas, orbitando sempre no mesmo espaço, mas você não. Você não tem culpa de ter a galáxia na alma, um universo inteiro dentro de você. Abrace sua imensidão e espalhe-se.

Seja profunda. Seja intensa. Seja luz. Seja você.

alguém que te veja

0 comentários
“Eu enxergo você”, ele disse.

“Me enxerga?” Ela disse.

“Não toda”, ele disse. “Mas eu conseguiria enxergar você na escuridão.”

Ela hesita, e pensa, e tenta formular uma resposta, mas desiste. O que ela poderia dizer, afinal?

Outros tentaram, ela pensa. Para alguns, até deu a lanterna. Me vejam, implorava, tantas e tantas vezes. Por favor, apenas me vejam. Mas viveu a vida toda presa a um túnel escuro e infinito que cavou para si mesma, e não tem mais certeza se consegue encontrar o caminho de volta — nem se consegue guiar outro até ali.

Mas lá está ele. “Eu enxergo você”, foi o que disse, e ela não sabe se acredita ou não. Quer acreditar, mais que tudo. Apenas me veja, repete, se em voz alta ou só para si, não sabe dizer.

“Somos iguais”, ele diz. “Eu te reconheço.”

Ela sorri e guarda as lágrimas. No fundo, acha que não, mas sabe que as vezes o melhor que podemos fazer e nos agarrar as esperanças. E não é isso que espera, que sempre esperou? Que alguém a visse, ainda que distante, ainda que invisível. Alguém que a enxergasse no escuro.

“Eu te reconheço também”, disse então, sem saber qual parte dela mentia para si e qual parte apenas admitia uma verdade que há muito desejava revelar.

Nada é para sempre

0 comentários
Eu sempre tive medo de ficar sozinha. Esse temor constante me acompanhou em vários estágios da vida em muitas formas diferentes, mas sempre se resumia à mesma coisa: ser deixada para trás, ser esquecida de alguma forma. Ver o mundo seguindo em frente enquanto ainda estou parada no mesmo lugar. Essa semana, esse assunto veio à tona na terapia, enquanto eu tentava explicar que meu maior medo não era que alguém me magoasse, que alguém me decepcionasse. Era abrir meu coração para alguém que não pretende ficar. Deixar entrar alguém que, mais tarde, vai sair. Porque todo mundo vai embora, sempre. A vida é inconstante demais, e e, taurina como sou, gosto da previsibilidade.

Conversa vai, conversa vem, falamos sobre todas as pessoas que haviam entrado e saído da minha vida, de amigos a amores, de professores a entes queridos. Num dado momento, ela me perguntou se eu aceitaria algumas dessas pessoas de volta, se elas quisessem voltar atrás. A respota foi rápida: não, não aceitaria. Não por rancor, nem por mágoa, mas porque não sou mais aquela pessoa. Não tem mais espaço na minha vida para alguém que ficou no meu passado.

Foi quando eu me liguei.

Todas as pessoas que estão na sua vida entraram nela por um motivo, e aquelas que saíram dela também se foram por uma razão. Pessoas não pertencem a pessoas -- não podemos obrigar ninguém a ficar, e, sinceramente, gostaríamos de prender alguém a nós contra a sua vontade e natureza? Todo mundo que passa pela gente o faz na hora exata e pelos motivos exatos, por mais que a gente não saiba qual é. Aprendemos uns com os outros, e quando o aprendizado cessa, é hora de partir. É a lei da vida. 

É difícil aceitar isso às vezes. Se você for como eu, vai se apegar às pessoas e sofrer com as partidas, porque mudanças às vezes são dolorosas. Mas no final, você percebe que, por mais que algumas pessoas não estejam mais presentes no seu dia a dia, elas ainda estão na sua vida: estão nas coisas que você faz, na maneira como você fala, nos aprendizados que você carrega, nas lembranças boas que você leva junto ao coração. A presença física é só um detalhe. No fim das contas, nada é para sempre, mas tudo é eterno, de um jeito ou de outro.

respire

0 comentários
segure minha mão
respire fundo
não chore
mas tudo bem chorar também
já contou até dez?
conta comigo
um dois três
um dois três
fale comigo
me distraia
respire fundo
conte até dez
abrace a mim
abrace a si
abrace a vida
não solte
e mais uma vez
um dois três
um dois três
está me ouvindo falar?
sou tudo que você precisa escutar
respire fundo
já está passando
vai ficar tudo bem
não precisa chorar
estarei sempre aqui com você
é só lembrar de respirar

o curativo

0 comentários
“Eu sei o que você está tentando fazer,” ele diz.

“E o que é?”, ela diz.

“Está tentando me afastar,” ele diz. “Mas não vai dar certo.”

Ela não responde. Talvez não conseguiria, mesmo se tentasse. Ele tem razão, e ela sabe. Sempre soube.

Porque é isso que ela faz. Ela afasta. Ela se esforça para tal. Em gestos e palavras, em omissões e na presença. Ela afasta.

Mas que outra opção ela tem? Pode esperar, quem sabe, esperar pelo final que ela sabe que está vindo. É o mesmo toda vez. Ele irá embora, e ela vai ficar, seu coração na mão ainda batendo, sangrando após uma punhalada gentil. Nenhum deles tem intenção de feri-la, mas todos sempre o fazem no final. Afastá-los é uma questão de piedade, para com eles, mas principalmente para consigo mesma. É tudo que ela tem. A última chance de controle.

Contudo, ela nada revela. Descobriu há muito tempo que as pessoas não querem realmente ouvir como os outros se sentem; querem apenas saber se isso as afeta. Talvez, pensa ela, se dissesse, seria mais rápido. Indolor. Talvez ele fosse embora agora mesmo.

Mas ainda não. No fundo, ela é covarde — quer tirar o curativo um pedaço por vez. Ainda não. Só mais um pouco. Só mais uma ferida e depois, quem sabe, ela puxe tudo de uma vez.

Doze

0 comentários
É oficial agora. Já estou há mais tempo sem você do que passamos juntos. Já faz algum tempo — oito de doze, se estivermos contando — mas é estranho mesmo assim.

Eu me pergunto se você também olha pro calendário e ainda se lembra. Se a senha do seu cartão ainda está lá pra te lembrar do passado. Se você também sente essa pontada no coração todo dia 26.
Não é amor, não mais; ou talvez seja, mas do jeito mais ínfimo possível. Amor por uma memória, por uma vida inteira que foi e a que poderia ter sido. Amor pelo primeiro amor. Ele sempre vai estar ali, eu acho. Fiz minhas pazes com isso, e com você.

Nesses últimos anos, passei por todos os estágios do luto. Houve um tempo em que essa data me deixaria pra baixo, pensando em tudo que eu queria que a gente ainda fosse. Já tem um tempo que não é mais assim. Hoje é um dia de lembranças, umas que não doem mais. Um passado que eu celebro.

Obrigada pelo dia 26, e por todos que vieram depois dele, felizes ou tristes. Obrigada por ter feito parte da minha história. Quatro de doze. Cada segundo valeu a pena.

ser quem é

0 comentários
"Eles sabem?" pergunta ele.

"Sabem o quê?" retruca ela.

"Que você é assim. Assim, como quando fala comigo." responde ele.

Ela para por um segundo e pensa. Pensa se deve falar a verdade. E a verdade é que nem mesmo ela sabe. Não sabe quem é, em meio a todas as pessoas que precisou ser ao longo da vida. Não sabe se algum dia alguém a conheceria de verdade, se teria a chance de mostrar todas as facetas daquele ser complicado que ela é -- não sabe sequer se alguém gostaria de conhecê-la, se soubesse quem ela é. Se pudessem vê-la, nua e crua, ainda iriam gostar de sua companhia? Ainda gostariam de tê-la por perto?

Exceto ele, pensa. Para ele falou coisas que nunca disse antes. Baixou a guarda. Abriu-se. Mas talvez, pensa ela, só o tenha feito porque sabe, de alguma forma, que ele não é real; ou ao menos, não tão real quanto os outros. Ele não está ali. Ela não precisa ter que lidar com a pressão do seu julgamento.

"Não, não sabem," responde, por fim, baixinho. "Acho que ninguém nunca vai saber," acrescenta, e o pensamento a entristece, porque não é mais sobre os outros. É sobre ela, e como, no fundo, talvez nem ela mesma saiba quem é. Portou-se de tantas maneiras, escondeu tantas coisas, forçou-se a viver tantas verdades, que, no fundo, não sabe mais dizer se está apenas posando para si mesma ou se pode afirmar com segurança conhecer a si própria. 

Talvez seja tudo um grande jogo. Talvez ninguém se conheça de verdade.

Tudo bem

1 comentários
Está tudo bem não estar bem por um dia, ou dois, ou dez. Tudo bem não querer encarar o mundo, querer se esconder debaixo das cobertas e chorar até o dia clarear. Está tudo bem se hoje o melhor que você pode fazer foi chegar até o fim do dia, foi não quebrar completamente, foi apenas sobreviver. Está tudo bem.

Também está tudo bem se você não quiser fazer nada hoje. O mundo não vai parar porque um dia, você pensou em si mesmo em primeiro lugar, e resolveu que sair da cama não te faria bem algum. Tudo bem se, só por hoje, você não quiser lutar, não quiser brigar, não quiser se importar muito com a vida. Você não é um robô. Você tem direito a ser quem é, a sentir o que sente. Está tudo bem.

Está tudo bem se você precisar cortar algumas coisas -- ou pessoas -- da sua vida. A gente aceita demais certas coisas, e aguenta muito mais do que deveria, e às vezes, o melhor que podemos fazer é dizer chega. Está tudo bem se você estiver no seu limite. Se você precisar dizer não a uns, evitar outros, se você precisar se afastar, tudo bem. Você é mais do que isso. Você merece ficar bem.

Hoje, está tudo bem. Só não estará bem quando os hojes se transformarem em sempre, quando você desistir completamente de você. Hoje, tudo bem descansar. É preciso. Amanhã, tenho certeza, você volta mais forte pra luta, e nas suas próximas batalhas, vencerá sem esforço. Hoje, respeite a si mesmo. Ouça seu corpo, sua mente. Por hoje, está tudo bem.


Próximos eventos

0 comentários
Oi, galera! Tudo bem?

Maio chegou todo poderoso trazendo não só o lançamento de O amante da princesa, como também vários eventos! A partir dessa sexta-feira, vou passar por várias cidades diferentes autografando os livros e batendo papo com vocês, então resolvi fazer aqui um master post com todos os eventos que vão acontecer nas próximas semanas!

11/05: Lançamento do Princesas GPower em Brasília, DF, na FNAC do Park Shopping Brasília às 18h (confira o evento)
12/05: Lançamento do Princesas GPower em São Paulo, SP, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, às 16h (confira o evento)




26/05: Lançamento de O Amante da Princesa em Campinas, SP, na Livraria Leitura do shopping Parque D. Pedro às 15h (confira o evento)




27/05: Lançamento de O Amante da Princesa em São Paulo, SP, na Livraria Saraiva do shopping Pátio Paulista, às 15h (confira o evento)

02/06: Lançamento do Princesas GPower + O Amante da Princesa em Rio de Janeiro, RJ, na Livraria Cultura do Cine Vitória, às 14h (confira o evento)

ALGUMAS DÚVIDAS FREQUENTES:

  1. Vai ter bate-papo? -- nos eventos de SP (dia 27) e Campinas, SIM, e eles terão senhas limitadas, então fiquem espertos quando eu divulgar horários pra não perder a chance. Nos demais, a gente vai conversar com todo mundo, mas vai ser mais informal.
  2. Até que horas você fica no evento? -- Isso depende um pouco da lotação de cada dia, mas o previsto é que cada evento dure de 2 a 3h. A gente sempre avisa porque sabemos que muitas pessoas trabalham às sextas ou sábados e às vezes se atrasam, então não se preocupe porque sempre dá tempo!
  3. Posso levar outros livros no lançamento? -- PODE! Quem quiser trazer exemplares de Amor Plus Size ou de O Amante da Princesa nos eventos do GPower, ou de GPower nos eventos de ADP está liberado! Vou assinar tudo!
  4. Vai ter brinde? -- SIM, mas ainda não posso contar o que vai ser!
Vejo vocês lá?

A corrida

0 comentários
Você não está ficando para trás.

Essa é uma frase que preciso dizer pra mim mesma todos os dias. Tenho sempre a sensação de que a vida está passando pra todo mundo, avançando pra todas as pessoas, e que eu sou a única sendo deixada para trás na maré. Estou constantemente com aquela sensação de ser a última da fila, a última a chegar, a última a vencer, a última a crescer; sempre a última, sempre a menos, sempre a que fica para trás.

Mas não estou. Nenhum de nós está.

Nosso erro -- acima de tudo, meu erro -- é medir nossa vida de acordo com a régua dos outros. Avaliar nossas conquistas, nosso tempo e nosso crescimento de acordo com o  que outras pessoas da mesma idade ou situação semelhante conseguiram é injusto e equivocado. A beleza da vida está na sua diversidade, no fato de que ela não é igual pra ninguém. Podemos trilhar caminhos parecidos até um ponto, mas depois dele, o que vem não está nas nossas mãos.

Por que eu, aos 25, deveria estar com a vida resolvida? Por que eu tenho que estar como o fulano, que já mora sozinho, ou igual ao beltrano, que está viajando o mundo, ou ao ciclano, que com a minha idade já está feliz e casado? Por que eu tenho que ser igual a alguém, e por que diabos eu precis ficar comparando a minha vida, as minhas escolhas e os meus sonhos aos dos outros?

Minha terapeuta me disse outro dia que a única pessoa a quem a gente deve se comparar é a nós mesmos. Eu sou melhor hoje do que eu era há um ano ou dois? Estou numa posição melhor, me tornei uma pessoa mais sábia, mais prudente, mais esperta? Eu cresci, à minha própria maneira?

E a resposta é... sim. Sim pra tudo. Sou uma pessoa diferente, e melhor do que fui no passado. Quantas vezes eu sonhei em chegar onde estou agora, e fazer as coisas que fiz, em ser quem eu sou? Isso é vitória, é avanço. Não fiquei para trás de nada nem de ninguém. Não é uma competição. A linha de chegada é diferente para cada pessoa. E a minha...

Bom, eu não sei onde está a minha. Mas sei que, no tempo certo, eu chego até lá.

MEU NOVO LIVRO ESTÁ EM PRÉ-VENDA!

0 comentários

Adquira O Amante da Princesa:
Saraiva: http://bit.ly/AmanteDaPrincesaSaraiva
Cultura: http://bit.ly/AmanteDaPrincesaCultura
Amazon: http://bit.ly/AmanteDaPrincesaAmazon
Travessa: http://bit.ly/AmanteDaPrincesaTravessa

Esse tal destino

0 comentários
Você acredita em coincidências? Estava falando sobre isso outro dia com as minhas amigas, sobre a felicidade das pequenas coisas que nos uniram e nos trouxeram até onde estamos hoje. A vida é um emaranhado dessas coincidências.

Por exemplo, muitas foram as coisas que me trouxeram até esse texto hoje. Precisei começar uma campanha no Padrim, por exemplo. Antes disso, precisei ficar desempregada, sentir o aperto no bolso. Mas, para ficar desempregada, precisei primeiro ter um emprego que pudesse perder. E, antes disso, a vontade de trabalhar que me levasse até esse emprego. Vontade essa que só surgiu porque, uns anos antes, eu estava desmotivada com a escrita depois de uma sequência de acontecimentos ruins. Que só existiram porque eu comecei essa carreira -- carreira esta que começou graças a uma dica de uma amiga, que conheci na internet, no fórum daquela que seria, dez anos depois, a minha editora. O mundo dá voltas, e eventualmente, essas voltas nos colocam onde era pra gente estar.

Isso significa que, se as coisas acontecessem de outra forma, se eu desviasse desse caminho por uma fala ou uma decisão, nada disso teria acontecido? Talvez não. Mais do que em coincidências, eu acredito em destino: aquele que a gente faz para nós mesmos todos os dias, escolha após escolha, um passo atrás do outro, e também aquele do qual não podemos escapar. O plano de deus, se você acredita nisso, ou simplesmente aquilo que era pra acontecer

Em algum ponto, acho que era pra eu chegar até aqui, e, chegando aqui, eu alcançaria você. Se traçarmos nossos caminhos de trás pra frente, talvez a gente encontre aquele momento exato que decidiu que esse caminho que trilhamos juntos era mesmo pra acontecer. Talvez não. Talvez, seja tudo só uma grande coincidência.

Liberdade

0 comentários
A liberdade tem muitas formas. Tem muitas caras. Ela não é a mesma pra todo mundo -- e muitas vezes, sequer é a mesma para nós, através dos tempos.

Aos dez anos, liberdade para mim era não ter lição de casa. Era poder passar a tarde inteira brincando, assistindo TV, lendo. Liberdade era não ser forçada a brincar com a minha irmã, era não ter um horário pra dormir nem um horário pra acordar. Eram as férias, os dias soltos de verão em que eu passava horas na piscina no sítio do meu tio. Liberdade sequer era uma palavra que eu conhecia, mas cujo significado eu já imaginava conhecer.

Aos dezoito anos, ser livre era não ter cobrança. Significava poder dirigir, poder beber, ser dona do meu próprio nariz, ainda que, naquela época, eu não fosse dona verdadeiramente de nada. Liberdade era sair de casa às 23h pra voltar só às 7h da manhã do dia seguinte. Era encher o peito para dizer que eu era adulta, mesmo sem saber exatamente o que aquilo queria dizer. Liberdade era um conceito conhecido e que eu imaginava já possuir por completo.

Hoje, aos quase 26, acho que liberdade é uma coisa diferente. Pra mim, liberdade é o direito de ir e vir, de existir, de falar e de pensar; é uma coisa tão complexa e ao mesmo tempo tão simples, que me choca que tanta gente não a possua. A Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que todos os homens nascem livres, mas não é bem verdade, é? Alguns são mais livres que outros, por privilégios, por contextos sociais. Para mim, liberdade é o que cabe na realidade de cada um, ainda que por ora: é cometer meus próprios erros, e crescer no meu próprio tempo, e viver da maneira como eu acho adequada. Liberdade é viver. 

Mas, antes de perguntar o que é liberdade pra você, eu te pergunto:

Você é livre?

Sobre ler

0 comentários
Uma das coisas que mais me encanta sobre ser escritora é saber como é ser leitora. E não existe nada melhor do que ficar preso em uma boa leitura.

Tenho certeza de que vocês sabem como é a sensação; começa fácil, descompromissado. Você diz "vou começar esse livro aqui", talvez com expectativas boas, talvez sem conhecer nada do enredo. Abre o livro ou destrava seu kindle, arranja um lugar confortável pra sentar, e se deixa cercar pelas primeiras páginas.

Se você tiver sorte, é aí que as coisas ficam boas. Você se propõe a ler só algumas páginas, mas quando vai ver, já se passaram seis capítulos e você não se lembra mais do próprio nome. Você completamente dominado por aquela história e seus personagens, e os conflitos deles, tão mais complexos e interessantes do que qualquer coisa que você já tenha experimentado na vida, já são os seus conflitos. Você talvez já tenha escolhido um lado, já tenha preferido um casal, rido alto de alguma piada ou simplesmente de nervoso.

Então, se você for que nem eu, um livro deixa de ser só um livro. Você discute em voz alta com ele, responde os personagens como se falassem com você. Os acontecimentos inesperados e cada plot twist que ferra com a vida do seu personagem preferido se torna uma ofensa pessoal. Você até tenta largar o livro pra ir fazer alguma outra coisa, mas descobre que agora é tarde demais pra tentar ter uma vida: você PRECISA terminar de ler. Então se conforma em não fazer mais nada o dia todo até terminar aquela história.

E quando você termina... ah, quando você termina, é como se tirassem um pedaço seu. Você sente que perdeu um amigo, um ente querido, mas ao mesmo tempo, se o final for bom, você fica feliz por eles terem ido embora -- o sofrimento acabou. Então você passa uns dias de ressaca, lembrando daquela história como quem lembra de uma memória muito boa, e torce pra que o próximo livro seja tão bom quanto este.

Não sei em quantas pessoas nem se já causei essa sensação com as minhas histórias. Mas, se eu tenho uma meta, um sonho, um objetivo, é esse: que alguém, em algum lugar, esqueça da vida e de quem é por algumas horas enquanto lê algo que eu escrevi, e que eu seja uma memória maravilhosa um dia sobre uma história inesquecível que ela sempre vai recomendar pra alguém. Como autora, não tem recompensa maior.


(auto)conhecimento

0 comentários
Nós nunca conhecemos ninguém de verdade. Você pode passar uma vida inteira com alguém, e ainda assim, se surpreender com as coisas que descobre dia após dia.

Esse é um dos ensinamentos da minha mãe que mais carrego comigo. Sempre que eu penso que entendo completamente alguém, faço questão de me lembrar que seres humanos são complicados, e que tempo nenhum é capaz de fazer com que a gente compreenda alguém 100%. E, de uns anos pra cá (ou talvez mais especificamente nos últimos meses) estendi isso para se aplicar a nós mesmos.

Nós nunca nos conhecemos de verdade. A gente passa a vida inteira sendo a gente, e mesmo assim, nos surpreendemos com as coisas que descobrimos dia após dia.

Eu sei que parece esquisito, mas pensa bem: o quanto você é consciente das suas ações, das suas qualidades e defeitos, assim como é com os outros? Se eu te pedisse agora para enumerar as características marcantes sobre o seu melhor amigo, você poderia listar várias, porque provavelmente passou algum tempo prestando atenção e aprendendo com e sobre ele/a pra desenvolver a relação que vocês tem agora. Mas nós fazemos isso com nós mesmos? Será que a gente gasta esse mesmo tempo prestando atenção nas coisinhas que tornam a gente a gente pra desenvolver nosso próprio relacionamento com nós mesmos?

E qual é a medida certa pela qual a gente mede quem nós somos? Somos as nossas atitudes, sem desculpas ou amarras, ou somos uma consequência do que foi feito conosco, da maneira como fomos criados? Quanto de mim é autêntico e quanto é um reflexo de quem convive comigo? E quem pode garantir que eu não terei, um dia, uma reação aparentemente atípica, dependendo do contexto ou da situação -- quem sabe um dia eu me torne uma pessoa diferente por outras circunstâncias, ou aja contra coisas que um dia eu acreditei porque acreditar em uma coisa e efetivamente fazê-la são coisas bem diferentes? Quem garante que eu sei o bastante sobre quem eu sou pra poder garantir que eu serei essa pessoa que eu acredito ser até o fim da vida?

É uma percepção estranha, mas também muito libertadora. Porque a partir do momento em que a gente entende que não se conhece, pode começar a tentar. Passa a prestar atenção em si mesmo, no mundo à sua volta, e em tudo que torna cada um de nós como é. Passamos a ser nossos melhores amigos. E quem sabe olhar para si mesmo com atenção seja o primeiro passo para poder olhar pro outro de verdade, e se deixar ser olhado em troca. Vai ver, minha mãe estava errada: você pode, sim, conhecer tudo sobre uma pessoa. Mas talvez precise conhecer tudo sobre você primeiro.

Ponto final

0 comentários
Eu não sei mais onde acaba o começo e começa o fim. Parece que já faz uma eternidade que os meios tomaram pontos finais e as vírgulas se tornaram interrogações. Talvez faça mesmo. Talvez tenha sido ontem.

Não foi sobre as cartas não lidas, as mensagens não respondidas, nem sobre as vezes em que encarei o vazio. Foi sobre o todo e sobre nada em particular. Foi sobre nós. Sobre mim.

De você, guardo as letras num papel, as fotos que não quero mais ver, as musicas que não consigo mais ouvir e os textos que um dia eu lerei com saudade do sentimento que não tenho mais. Guardo as lembranças e a parte boa, que é tudo que posso guardar. O resto é história, daquelas que a gente não conta porque não vale mais a pena. Vai ficar pra outra hora, pra outro alguém, outra vida. Já foi.

Não sei o que você guarda de mim, nem com que entonação fala ou pensa meu nome - se é que pensa. Um dia, daqui um mês ou um ano, vou virar história na sua boca, aquela garota que um dia conheci e hoje não sei mais quem é. Não deu certo, ou deu até não dar mais.

Virei a página sem nem saber como nem quando, encerrando um capítulo longo com final entreaberto. A história continua. Todos somos histórias, no fim. Com nós dois não poderia ser diferente.

Eu, Arte

0 comentários
Semana passada, na terapia, minha psicóloga me pediu pra completar a frase "Eu sou..." com as primeiras palavras que me viessem à mente. Incluí uma série de coisas, algumas menos espontâneas do que outras, e ali no meio, estava aquela feridinha incômoda que sempre me acompanha:

Eu sou... bonita. (às vezes)

Ela me pediu pra explicar os parênteses, e passei alguns minutos tentando colocar em palavras coerentes a montanha russa de inseguranças que eu vivia com o meu corpo. Como é se sentir bonita apesar de algumas coisas, e não por causa delas. Como estou caminhando, devagar e sempre, para o dia em que não vou viver mais em função do espelho. Infelizmente, não chegamos muito longe nesse debate. Papos para outras sessões.

Corta para o dia seguinte. Combinei com uma amiga de longa data e minha fotógrafa preferida de fazermos umas fotos para atualizar o portfólio dela e o meu material de divulgação. Costumávamos fazer sessões dessas todo ano, mas desde 2015 não tínhamos tempo pra uma das nossas tardes de Maitê e Isaac. E aí que, no meio do papo em que combinávamos os quandos e ondes, ela me faz o convite:

"E se a gente fizesse umas fotos mais sensuais?"

A intenção de fazer esse ensaio, digamos, menos convencional, era uma ideia antiga, um desafio pessoal para nós duas, eu com o meu corpo e ela como fotógrafa. Topei, mas na hora, me bateu aquele medo; ironicamente, não o de não ter coragem de posar, mas o de descobrir aquilo que eu sempre soube, internamente: que não sou sensual, nem desejável, e nada que eu faça pode mudar isso.

Como várias outras coisas sobre a minha relação com o meu corpo, essa questão do recato e da sensualidade/sexualidade também são pontos delicados. Aprendi a me esconder por hábito e segurança, por vergonha e por precaução. Recebi olhadas tortas o suficiente na rua, piadinhas e comentários grosseiros de todos os lados pra acreditar que não apenas ninguém queria ver meu corpo, mas que ele também não queria ser visto. Não vou entrar aqui em todos os detalhes dolorosamente chatos de como essa premissa estragou vários aspectos da minha vida. No fim das contas, restava uma verdade clara a ser testada:

Sim, eu amo meu reflexo -- ou pelo menos amo mais hoje do que já amei algum dia. Mas será que ainda iria amá-lo quando não houvessem roupas entre nós? Quando eu me despisse dos filtros e das roupas bem cortadas, da moda e do meu próprio olhar através da lente, eu ainda saberia achar o caminho pra gostar de mim mesma?

Foi a experiência mais engraçada, incômoda e reveladora que eu já vivi. Longe de ser um tipo de nu de Playboy, o que a gente fez foi se divertir com ângulos e poses, extravagâncias, músicas e pouca roupa. Fizemos, à nossa própria maneira, arte. E arte foi como me senti. Uma arte viva, em um longo processo de amadurecimento para me tornar obra-prima. Desabrochei na falta de decoro, na confiança de um olhar amigo, e, por que não, na insegurança do resultado. Não importava se ficaria bom ou não. A única a ver seria eu.

Tive vontade de chorar quando vi as fotos. Tenho vontade de chorar agora. Mas, não pela primeira vez, um choro bom, de quem deixou um peso que estava carregando para trás. Olhei pra mim, e me vi mulher. Me vi bonita. Me vi arte. Me vi eu. Tive vontade de mostrar pra todo mundo e ao mesmo tempo guardar aquele segredo a sete chaves, tão íntimo e real ele me parecia. 

Ainda não sei o que serão das fotos. Talvez o novo desafio seja deixar que elas vejam a luz do dia. Mas por enquanto, esse desafio basta. Hoje, não sou bonita nem apesar, nem por causa, nem às vezes.

Apenas sou.

O sótão

0 comentários
"Você pegou as suas dores e transformou em arte."

Ouvi essa frase ontem da minha terapeuta e ainda não consegui acreditar. Como numa daquelas conversas que parece que fui eu quem escrevi, ela disse tudo que eu precisava escutar, ainda que doesse.

É estranho quando mais alguém enxerga na gente aquilo que nós mesmos não queremos ver. Sempre soube que era aquilo que eu estava fazendo -- uma das coisas que mais me atrai sobre escrever é justamente o processo terapêutico da coisa. Mas é estranho quando mais alguém vê isso, enxerga aquele pedaço de você que, por mais óbvio que seja, está entranhado tão fundo que você nem sabe mais dizer onde ele começa.

E é ainda mais esquisito debater isso com outra pessoa. É como abrir seu coração sobre uma mesa, e tirar dele tudo que você tem, e esperar que a outra pessoa reaja a todas as porcarias que você carrega com você. Mais de uma vez, ela me lembra que terapia e autoconhecimento são isso: escancarar as portas do porão que tem dentro de você e se dispor a limpar peça por peça, escolhendo o que você vai levar e o que vai deixar para trás.

Comecei esse caminho há muito tempo, abrindo meu coração entre páginas de livros. A exposição mais de uma vez ajudou a me curar. Agora é hora de recomeçar esse trabalho, mais a sério, mais conscientemente. Não sei quanto tempo mais vai demorar. Mas talvez, no final dessa jornada, meu coração deixe de ser porão e vire jardim, pronto para florescer coisas novas, muito confortável à luz do dia.

O sol e a janela

0 comentários
Ontem foi Terça de Terapia. O que é irônico porque a Duda, personagem de Amor Plus Size, tem a Terça de Terapia em seu próprio livro. Mas deixemos esse assunto para outra hora.

Ontem foi Terça de Terapia, e no vai e vem das conversas com a minha psicóloga, ela me disse uma coisa que está ecoando na minha cabeça até agora: "o sol brilha igual pra todo mundo, mas nem todo mundo abre a janela".

Estávamos falando sobre oportunidades e talento. Falei sobre como às vezes eu me deixava abater pelo cansaço, pela falta de motivação, pela vida. Ela me lembrou, então, que todos nós temos uma luz própria, e todos nós brilhamos; só que alguns preferem ignorar esse brilho e outros tentam brilhar mais. Daí a analogia da janela. 

Porque, sabe, é tão mais fácil às vezes deixar a janela fechada e reclamar que o dia está feio, que a vida é injusta, que o clima não está como você queria. É fácil se privar das coisas e se esconder atrás do medo, atrás da janela fechada. Esquecemos, às vezes, que nossa casa -- nossa mente -- somos nós mesmos. E eu sei, nem sempre temos controle sobre ela. Mas às vezes, naqueles dias comuns, tudo o que basta é abrir as cortinas e deixar a luz entrar. É ver o sol. É se deixar brilhar.

Porque, no fim do dia, assim como a vida, o sol não espera por ninguém.


Isolamento

1 comentários
Uma das coisas que mais me incomoda sobre a ansiedade é a paranoia sobre os outros. Aquela coisa de achar o tempo todo que ninguém gosta de você.

Começa pequeno. Você está conversando com alguém, e essa pessoa, por estar sem tempo ou sem ânimo, te responde de uma maneira mais atravessada. Você decide não incomodar mais a pessoa naquele dia, e no dia seguinte, por não saber, acaba decidindo não conversar. Aí você manda uma mensagem que a pessoa se esquece de responder, ou liga num momento em que ela está ocupada e não te atende. Você não sabe como, mas de repente, aquela coisinha pequenininha já se transformou num monstro, e você tem certeza: aquela pessoa te odeia.

Você se pega evitando conversar com essa pessoa ou olhá-la nos olhos. Você começa a enxergar indiretas em todos os lugares, mesmo que elas não estejam ali. A cisma é uma coisa muito difícil de ignorar, e aquele bichinho da desconfiança não apenas falou com você, como fez sua cabeça. Você vê sinais o tempo todo e começa a repassar cada conversa e cada encontro na sua cabeça, se perguntando o que será que você fez para que aquela pessoa tenha passado a te odiar aparentemente da noite para o dia.

E de repente, você já não se sente confortável com nada, porque tem essa certeza de que, assim como aquela tal pessoa, muitas outras pensam igual. Eles não gostam de você nem apreciam a sua companhia -- de tolerar é, na verdade, um efeito colateral, e eles se arrependem amargamente de terem deixado você se aproximar, para começo de conversa. Então, para se prevenir e resguardar os outros, decide não aparecer mais. Não conversa, não liga, não sai. Você apenas não está mais ali. É o jeito mais fácil de evitar desapontamentos.

E que surpresa acontece quando alguém, talvez até mesmo aquela primeira pessoa que você se convenceu que te odiava, vem perguntar se está tudo bem. Que alívio é descobrir que ninguém te odeia -- bom, talvez alguém, mas não alguém que interesse. Você retoma suas amizades de novo, volta a ser uma pessoa normal. Mas só até quando a ansiedade deixar. Só até você escutar aquela vozinha no seu ouvido, e iniciar o ciclo todo outra vez.

 
Larissa Siriani | Copyright © Design por Naiare Crastt • Mantido pelo Blogger