A Gaiola

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Você me disse ainda ontem que nada iria mudar. Mas não era verdade, era? Tudo muda o tempo todo. Eu devia saber.

É difícil não gostar de mudanças. A gente se apega a coisas que não deveria. A uma boneca velha, a uma calça que não serve mais, a um amor que não nos faz bem. A gente tem em si essa certeza de que precisa daquelas coisas parar viver, porque afinal, vivemos tão bem com elas até ali. Não vivemos? Talvez. Mas a certeza das lembranças um tanto turvas ainda é melhor do que olhar para o precipício e ter que se lançar a ele. 

Mas cá estamos nós, dançando na ponta dos pés, nos equilibrando para não cair. Achei que você fosse meu para-quedas. Em vez disso, você se tornou a mão que me empurra.

Então caí. Para o vazio, sentindo o vento cortar meu rosto, fechando os braços em torno de mim para me proteger do baque inevitável. Fechei os olhos, e então me questionei porque estava me privando da vista. Só há dois modos de encarar a queda: ela pode ser o impacto ao final, ou ela pode ser o vôo durante. Escolhi voar. Abri os olhos e os braços e fingi que voava. Tentei me lembrar de aproveitar a vista.

E planei. Descobri que a queda é longa, mas que pior que o mal estar na boca do estômago ao voar é estar sempre na ponta do abismo me preparando para cair. Sei que um dia encontrarei o chão, mas sei também que não há temor nessa certeza. De braços cruzados ou abertos, o baque final vai chegar -- então, por que não aproveitar o caminho? É tudo que tenho, o aqui e o agora, as asas abertas e a paisagem correndo rápido ao meu redor.

No final, acho que te devo um obrigada. Não pelas promessas não cumpridas, não por me ferir, mas por me empurrar sem aviso. Porque sempre fui pássaro, mas ao seu lado, estaria para sempre condenada a viver em uma gaiola.

Programação da Bienal 2018!

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Então o momento mais aguardado do ano está chegando! É hora de BIENAL DO LIVRO!

Já posso começar a gritar?

Como faço todo ano, eis aqui minha programação pra quem quiser me encontrar na feira. É importante ressaltar que, além dos eventos destacados abaixo, eu estarei presente em vários outros dias, sempre no estande da Record, da Qualis ou do Eu Leio Brasil! Estarei na feira no primeiro final de semana (3 a 5 de Agosto), na segunda e na quarta-feira (6 e 8 de Agosto) e no segundo fim de semana (10 a 12 de Agosto).

Dito isso, vamos aos eventos!!

03/08, sexta-feira
O que: Encontro de fãs de Romance de Época, com Paola Aleksandra, Babi A. Sette, Marina Carvalho e Lucy Vargas
Onde: Arena Cultural
Horário: 20h
Regras: Limitado à capacidade da arena, por ordem de chegada
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04/08, sábado
O que: Café da Manhã com a GPower
Onde: Qualis Editora (K080)
Horário: 10h
Regras: Limitado à capacidade do estande, por ordem de chegada
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O que: Encontro de Podcasters e Ouvintes
Onde: Estande Ubook
Horário: 14h
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05/08, domingo
O que: Lançamento de "O Incrível Livro de Autógrafos" com a GPower
Onde: Eu Leio Brasil (K092)
Horário: 14h
Regras: Limitado à capacidade do estande, por ordem de chegada
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O que: Lançamento "O Amante da Princesa"
Onde: Editora Record (G028)
Horário: 15h
Regras: 150 senhas serão distribuídas no estande da Record a partir das 10h. Limite de 2 livros por pessoa, sendo um deles "O Amante da Princesa"
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10/08, sexta
O que: Autógrafos com Babi A. Sette
Onde: Editora Record (G028)
Horário: 19h
Regras: 150 senhas serão distribuídas no estande da Record a partir das 10h.
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Quem já estamos ansiosos? Espero ver todo mundo por lá <3 p="">

9 Aprendizados de Escritora

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25 de Julho é o Dia do Escritor. Se você está aqui, eu sei que você, como eu, já viu essa data rolando na timeline diversas vezes: tem tipo umas 200 datas diferentes pra dia do livro, e dia do escritor, e se eu for bem sincera, é uma coisa que eu meio que comemoro todos os dias simplesmente por ter coragem de continuar nessa vida.

Mas entramos todos em consenso que dia 25 de Julho é Dia do Escritor, e como esse ano já completo nove anos de carreira (uau, comecei faz tempo!) decidi que nesse dia, faria uma listinha de 9 coisas que aprendi como escritora. Daqui nove anos, se eu ainda estiver nesse caminho (e eu espero que sim) talvez alguns desses aprendizados mudem, ou outros sejam adicionados; mas por ora, eis algumas coisas que essa carreira me ensinou e me ensina todos os dias.


  1. Você não é autossuficiente: acho que todos nós começamos essa carreira meio que achando que podemos dar conta de tudo. Alguns de nós somos forçados a isso, como eu fui, pela falta de informação ou contatos. Mas a verdade é que você não precisa ser tudo. Você não precisa manjar de design e 100% de gramática e você pode e deve confiar em outros profissionais pra que o seu livro saia da melhor forma possível. O que me leva a...
  2. Um livro não se cria sozinho: isso significa que escrever pode ser um processo solitário, mas todo o resto que leva ao produto final NÃO. Procure leitores críticos, leitores betas, profissionais qualificados para cuidarem do seu projeto com você. E sim, isso significa que...
  3. Livro custa dinheiro: e se você, como eu, tiver que começar de maneira independente, então vai ter que colocar a mão no bolso. Não adianta economizar porque o leitor sente essa economia, seja em uma revisão porca, em uma diagramação malfeita, ou em um texto que poderia ser FANTÁSTICO, mas é apenas bom porque a gente poupou na hora de procurar um leitor crítico. Aceitem esse conselho de alguém que publicou MUITOS livros despreparados: você não quer começar sua carreira com um livro mediano.
  4. Muita gente não vai gostar do seu trabalho: e tudo bem. Você não existe pra agradar todo mundo. Nada é unânime. É claro que sua missão deve ser sempre entregar a melhor história possível para novos e antigos leitores, mas muita gente vai criticar o que você faz, e você precisa aprender a lidar com isso. Aceite críticas, saiba desviar do hate, e lembre-se que no final, tudo fica bem se você confiar no que está fazendo.
  5. Você não é o melhor escritor do mundo: e isso não quer dizer que nunca será; significa apenas que aprender a controlar o ego e buscar sempre melhorar é a chave. A gente às vezes se perde achando que está pronto, que está perfeito, e a verdade é que nunca estamos. Uma dose saudável de autocrítica é o que faz a gente melhorar.
  6. Seus leitores são a sua vida: você não teria carreira se não tivesse leitores. Ame e, principalmente, respeite quem está nessa com você. O único motivo pelo qual sobrevivi nesse mercado por 9 anos é porque tive e tenho muito apoio de várias pessoas. Me dói muito ver autores menosprezando o público que os mantém produzindo. Valorize quem apóia seu trabalho.
  7. Outros escritores não são competição: ninguém lê um livro só na vida, e ajudar o seu colega a crescer não vai minar seu espaço, e sim ajuda-lo a crescer. Eu me apoiei MUITO em outros autores ao longo desses anos, e juntos nós crescemos muito mais rápido do que teríamos conseguido separadamente. O que me leva a...
  8. Apoie a literatura nacional: o que não significa que você precisa amar e babar ovo em cima de todos os livros que são publicados, mas que, se nem VOCÊ lê o que é publicado aqui, como você pode esperar que outras pessoas leiam? Compre livros nacionais. Indique autores. Alimente o mercado para que ele tenha espaço pra você. E por último, e mais importante...
  9. Acredite em você: nem todos os dias serão fáceis. Você provavelmente vai pensar em desistir umas 10 vezes por dia. Viver de literatura não é um caminho simples e pode ser bastante cruel. Mas com trabalho árduo, muita paciência e persistência (além de uma boa dose de sorte, não nego) a gente chega lá. Se é isso que você quer pra você, se você confia no seu potencial, não desista. Juntos, nós caminhamos!
Feliz dia a todos os meus amigos autores que vem trilhando esse caminho comigo. E a você, leitor, que faz essa carreira possível: meu mais sincero obrigada.

Surra de Eventos

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Hoje não teve texto inédito por aqui (mas você pode receber coisas novas toda semana me apadrinhando no Padrim) mas quero aproveitar o espaço aqui pra falar de uma coisa que eu amo fazer e que em Julho e Agosto vai ocupar cada segundinho disponível dos meus dias: EVENTOS!

Essas próximas semanas estarão repletas de programação cultural aqui em São Paulo e estou muito feliz de participar de várias delas! Então, se você é daqui, veja os próximos eventos que eu vou participar ;)

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Mais Literatura é um grande bate-papo com vários autores organizado pelo blog De Boca Cheia que vai contar com o apoio de várias editoras. Além das mesas de debate, ainda vão rolar muitos sorteios. Importante frisar que não vai rolar venda de livros no evento, então quem quiser autógrafos tem que levar seu exemplar ;)

Quando: 21 de Julho de 2018
Onde: Unibes Cultural - Rua Oscar Freire, 2500, do lado do metrô Sumaré
Que horas: 14h


Já no Domingo Offline a proposta é bem o que o nome diz: ficar offline por algumas horas. Vamos nos desconectar em um piquenique gostosinho, falando de livros e botando as fofocas em dia. O evento é pago, e o ingresso te garante participação nos sorteios e também a comilança do dia, toda por conta da organização!

Quando: 22 de Julho de 2018
Onde: Espaço Vivartte - Praça Vicente Celestino, 364, Barra Funda - SP
Que horas: 13h


Já tem vários anos que participo da Semana do Livro Nacional aqui em São Paulo, e esse ano não vai ser diferente. Estou muito ansiosa pela edição 2018, que vai ser na Livraria Cultura da Avenida Paulista e vai contar com um time incrível de autores pra falar sobre literatura! Só quem já frequenta o evento há anos sabe o quanto ele é divertido. Se você nunca participou, sua chance é essa!

Quando: 28 de Julho de 2018
Onde: Livraria Cultura do Conjunto Nacional - Avenida Paulista, São Paulo, SP
Que horas: 16h


Parece ontem que rolou a edição do Rio, mas a Bienal do Livro de São Paulo deste ano já está quase aqui! Em apenas três semanas, vamos invadir o Anhembi com muitos livros e amor. Minha programação completa está aí na imagem, e estou muito feliz e animada em participar da programação oficial da Bienal neste ano! Além dos horários oficiais, também estarei na feira na quarta-feira, dia 8 de Agosto, e nos dias 11 e 12 de Agosto, ainda sem programação fixa.

Quando: 3 a 12 de Agosto de 2018
Onde: Pavilhão de Exposições do Anhembi, São Paulo, SP
Que horas: das 10h às 21h

Seja luz

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Não chore, menina. Essa solidão vai passar. É coisa de quem carrega um oceano inteiro no coração — a gente as vezes perde a dimensão dos sentimentos. Transforma gelo em iceberg, ilha em continente.

Não se aborreça, menina. Essa dor vai passar. Não culpe o buraco negro em sua mente: lembre-se que ele suga tudo ao seu redor, mas sem os buracos negros, não existiriam as super-novas. Você não é o fim de tudo, a escuridão completa, e sim uma estrela esperando para nascer.

Não se entregue, menina. Esse amor um dia vai se encontrar. Algumas pessoas nasceram para ser planetas, orbitando sempre no mesmo espaço, mas você não. Você não tem culpa de ter a galáxia na alma, um universo inteiro dentro de você. Abrace sua imensidão e espalhe-se.

Seja profunda. Seja intensa. Seja luz. Seja você.

alguém que te veja

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“Eu enxergo você”, ele disse.

“Me enxerga?” Ela disse.

“Não toda”, ele disse. “Mas eu conseguiria enxergar você na escuridão.”

Ela hesita, e pensa, e tenta formular uma resposta, mas desiste. O que ela poderia dizer, afinal?

Outros tentaram, ela pensa. Para alguns, até deu a lanterna. Me vejam, implorava, tantas e tantas vezes. Por favor, apenas me vejam. Mas viveu a vida toda presa a um túnel escuro e infinito que cavou para si mesma, e não tem mais certeza se consegue encontrar o caminho de volta — nem se consegue guiar outro até ali.

Mas lá está ele. “Eu enxergo você”, foi o que disse, e ela não sabe se acredita ou não. Quer acreditar, mais que tudo. Apenas me veja, repete, se em voz alta ou só para si, não sabe dizer.

“Somos iguais”, ele diz. “Eu te reconheço.”

Ela sorri e guarda as lágrimas. No fundo, acha que não, mas sabe que as vezes o melhor que podemos fazer e nos agarrar as esperanças. E não é isso que espera, que sempre esperou? Que alguém a visse, ainda que distante, ainda que invisível. Alguém que a enxergasse no escuro.

“Eu te reconheço também”, disse então, sem saber qual parte dela mentia para si e qual parte apenas admitia uma verdade que há muito desejava revelar.

Nada é para sempre

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Eu sempre tive medo de ficar sozinha. Esse temor constante me acompanhou em vários estágios da vida em muitas formas diferentes, mas sempre se resumia à mesma coisa: ser deixada para trás, ser esquecida de alguma forma. Ver o mundo seguindo em frente enquanto ainda estou parada no mesmo lugar. Essa semana, esse assunto veio à tona na terapia, enquanto eu tentava explicar que meu maior medo não era que alguém me magoasse, que alguém me decepcionasse. Era abrir meu coração para alguém que não pretende ficar. Deixar entrar alguém que, mais tarde, vai sair. Porque todo mundo vai embora, sempre. A vida é inconstante demais, e e, taurina como sou, gosto da previsibilidade.

Conversa vai, conversa vem, falamos sobre todas as pessoas que haviam entrado e saído da minha vida, de amigos a amores, de professores a entes queridos. Num dado momento, ela me perguntou se eu aceitaria algumas dessas pessoas de volta, se elas quisessem voltar atrás. A respota foi rápida: não, não aceitaria. Não por rancor, nem por mágoa, mas porque não sou mais aquela pessoa. Não tem mais espaço na minha vida para alguém que ficou no meu passado.

Foi quando eu me liguei.

Todas as pessoas que estão na sua vida entraram nela por um motivo, e aquelas que saíram dela também se foram por uma razão. Pessoas não pertencem a pessoas -- não podemos obrigar ninguém a ficar, e, sinceramente, gostaríamos de prender alguém a nós contra a sua vontade e natureza? Todo mundo que passa pela gente o faz na hora exata e pelos motivos exatos, por mais que a gente não saiba qual é. Aprendemos uns com os outros, e quando o aprendizado cessa, é hora de partir. É a lei da vida. 

É difícil aceitar isso às vezes. Se você for como eu, vai se apegar às pessoas e sofrer com as partidas, porque mudanças às vezes são dolorosas. Mas no final, você percebe que, por mais que algumas pessoas não estejam mais presentes no seu dia a dia, elas ainda estão na sua vida: estão nas coisas que você faz, na maneira como você fala, nos aprendizados que você carrega, nas lembranças boas que você leva junto ao coração. A presença física é só um detalhe. No fim das contas, nada é para sempre, mas tudo é eterno, de um jeito ou de outro.

respire

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segure minha mão
respire fundo
não chore
mas tudo bem chorar também
já contou até dez?
conta comigo
um dois três
um dois três
fale comigo
me distraia
respire fundo
conte até dez
abrace a mim
abrace a si
abrace a vida
não solte
e mais uma vez
um dois três
um dois três
está me ouvindo falar?
sou tudo que você precisa escutar
respire fundo
já está passando
vai ficar tudo bem
não precisa chorar
estarei sempre aqui com você
é só lembrar de respirar

o curativo

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“Eu sei o que você está tentando fazer,” ele diz.

“E o que é?”, ela diz.

“Está tentando me afastar,” ele diz. “Mas não vai dar certo.”

Ela não responde. Talvez não conseguiria, mesmo se tentasse. Ele tem razão, e ela sabe. Sempre soube.

Porque é isso que ela faz. Ela afasta. Ela se esforça para tal. Em gestos e palavras, em omissões e na presença. Ela afasta.

Mas que outra opção ela tem? Pode esperar, quem sabe, esperar pelo final que ela sabe que está vindo. É o mesmo toda vez. Ele irá embora, e ela vai ficar, seu coração na mão ainda batendo, sangrando após uma punhalada gentil. Nenhum deles tem intenção de feri-la, mas todos sempre o fazem no final. Afastá-los é uma questão de piedade, para com eles, mas principalmente para consigo mesma. É tudo que ela tem. A última chance de controle.

Contudo, ela nada revela. Descobriu há muito tempo que as pessoas não querem realmente ouvir como os outros se sentem; querem apenas saber se isso as afeta. Talvez, pensa ela, se dissesse, seria mais rápido. Indolor. Talvez ele fosse embora agora mesmo.

Mas ainda não. No fundo, ela é covarde — quer tirar o curativo um pedaço por vez. Ainda não. Só mais um pouco. Só mais uma ferida e depois, quem sabe, ela puxe tudo de uma vez.

Doze

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É oficial agora. Já estou há mais tempo sem você do que passamos juntos. Já faz algum tempo — oito de doze, se estivermos contando — mas é estranho mesmo assim.

Eu me pergunto se você também olha pro calendário e ainda se lembra. Se a senha do seu cartão ainda está lá pra te lembrar do passado. Se você também sente essa pontada no coração todo dia 26.
Não é amor, não mais; ou talvez seja, mas do jeito mais ínfimo possível. Amor por uma memória, por uma vida inteira que foi e a que poderia ter sido. Amor pelo primeiro amor. Ele sempre vai estar ali, eu acho. Fiz minhas pazes com isso, e com você.

Nesses últimos anos, passei por todos os estágios do luto. Houve um tempo em que essa data me deixaria pra baixo, pensando em tudo que eu queria que a gente ainda fosse. Já tem um tempo que não é mais assim. Hoje é um dia de lembranças, umas que não doem mais. Um passado que eu celebro.

Obrigada pelo dia 26, e por todos que vieram depois dele, felizes ou tristes. Obrigada por ter feito parte da minha história. Quatro de doze. Cada segundo valeu a pena.

ser quem é

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"Eles sabem?" pergunta ele.

"Sabem o quê?" retruca ela.

"Que você é assim. Assim, como quando fala comigo." responde ele.

Ela para por um segundo e pensa. Pensa se deve falar a verdade. E a verdade é que nem mesmo ela sabe. Não sabe quem é, em meio a todas as pessoas que precisou ser ao longo da vida. Não sabe se algum dia alguém a conheceria de verdade, se teria a chance de mostrar todas as facetas daquele ser complicado que ela é -- não sabe sequer se alguém gostaria de conhecê-la, se soubesse quem ela é. Se pudessem vê-la, nua e crua, ainda iriam gostar de sua companhia? Ainda gostariam de tê-la por perto?

Exceto ele, pensa. Para ele falou coisas que nunca disse antes. Baixou a guarda. Abriu-se. Mas talvez, pensa ela, só o tenha feito porque sabe, de alguma forma, que ele não é real; ou ao menos, não tão real quanto os outros. Ele não está ali. Ela não precisa ter que lidar com a pressão do seu julgamento.

"Não, não sabem," responde, por fim, baixinho. "Acho que ninguém nunca vai saber," acrescenta, e o pensamento a entristece, porque não é mais sobre os outros. É sobre ela, e como, no fundo, talvez nem ela mesma saiba quem é. Portou-se de tantas maneiras, escondeu tantas coisas, forçou-se a viver tantas verdades, que, no fundo, não sabe mais dizer se está apenas posando para si mesma ou se pode afirmar com segurança conhecer a si própria. 

Talvez seja tudo um grande jogo. Talvez ninguém se conheça de verdade.

Tudo bem

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Está tudo bem não estar bem por um dia, ou dois, ou dez. Tudo bem não querer encarar o mundo, querer se esconder debaixo das cobertas e chorar até o dia clarear. Está tudo bem se hoje o melhor que você pode fazer foi chegar até o fim do dia, foi não quebrar completamente, foi apenas sobreviver. Está tudo bem.

Também está tudo bem se você não quiser fazer nada hoje. O mundo não vai parar porque um dia, você pensou em si mesmo em primeiro lugar, e resolveu que sair da cama não te faria bem algum. Tudo bem se, só por hoje, você não quiser lutar, não quiser brigar, não quiser se importar muito com a vida. Você não é um robô. Você tem direito a ser quem é, a sentir o que sente. Está tudo bem.

Está tudo bem se você precisar cortar algumas coisas -- ou pessoas -- da sua vida. A gente aceita demais certas coisas, e aguenta muito mais do que deveria, e às vezes, o melhor que podemos fazer é dizer chega. Está tudo bem se você estiver no seu limite. Se você precisar dizer não a uns, evitar outros, se você precisar se afastar, tudo bem. Você é mais do que isso. Você merece ficar bem.

Hoje, está tudo bem. Só não estará bem quando os hojes se transformarem em sempre, quando você desistir completamente de você. Hoje, tudo bem descansar. É preciso. Amanhã, tenho certeza, você volta mais forte pra luta, e nas suas próximas batalhas, vencerá sem esforço. Hoje, respeite a si mesmo. Ouça seu corpo, sua mente. Por hoje, está tudo bem.


Próximos eventos

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Oi, galera! Tudo bem?

Maio chegou todo poderoso trazendo não só o lançamento de O amante da princesa, como também vários eventos! A partir dessa sexta-feira, vou passar por várias cidades diferentes autografando os livros e batendo papo com vocês, então resolvi fazer aqui um master post com todos os eventos que vão acontecer nas próximas semanas!

11/05: Lançamento do Princesas GPower em Brasília, DF, na FNAC do Park Shopping Brasília às 18h (confira o evento)
12/05: Lançamento do Princesas GPower em São Paulo, SP, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, às 16h (confira o evento)




26/05: Lançamento de O Amante da Princesa em Campinas, SP, na Livraria Leitura do shopping Parque D. Pedro às 15h (confira o evento)




27/05: Lançamento de O Amante da Princesa em São Paulo, SP, na Livraria Saraiva do shopping Pátio Paulista, às 15h (confira o evento)

02/06: Lançamento do Princesas GPower + O Amante da Princesa em Rio de Janeiro, RJ, na Livraria Cultura do Cine Vitória, às 14h (confira o evento)

ALGUMAS DÚVIDAS FREQUENTES:

  1. Vai ter bate-papo? -- nos eventos de SP (dia 27) e Campinas, SIM, e eles terão senhas limitadas, então fiquem espertos quando eu divulgar horários pra não perder a chance. Nos demais, a gente vai conversar com todo mundo, mas vai ser mais informal.
  2. Até que horas você fica no evento? -- Isso depende um pouco da lotação de cada dia, mas o previsto é que cada evento dure de 2 a 3h. A gente sempre avisa porque sabemos que muitas pessoas trabalham às sextas ou sábados e às vezes se atrasam, então não se preocupe porque sempre dá tempo!
  3. Posso levar outros livros no lançamento? -- PODE! Quem quiser trazer exemplares de Amor Plus Size ou de O Amante da Princesa nos eventos do GPower, ou de GPower nos eventos de ADP está liberado! Vou assinar tudo!
  4. Vai ter brinde? -- SIM, mas ainda não posso contar o que vai ser!
Vejo vocês lá?

A corrida

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Você não está ficando para trás.

Essa é uma frase que preciso dizer pra mim mesma todos os dias. Tenho sempre a sensação de que a vida está passando pra todo mundo, avançando pra todas as pessoas, e que eu sou a única sendo deixada para trás na maré. Estou constantemente com aquela sensação de ser a última da fila, a última a chegar, a última a vencer, a última a crescer; sempre a última, sempre a menos, sempre a que fica para trás.

Mas não estou. Nenhum de nós está.

Nosso erro -- acima de tudo, meu erro -- é medir nossa vida de acordo com a régua dos outros. Avaliar nossas conquistas, nosso tempo e nosso crescimento de acordo com o  que outras pessoas da mesma idade ou situação semelhante conseguiram é injusto e equivocado. A beleza da vida está na sua diversidade, no fato de que ela não é igual pra ninguém. Podemos trilhar caminhos parecidos até um ponto, mas depois dele, o que vem não está nas nossas mãos.

Por que eu, aos 25, deveria estar com a vida resolvida? Por que eu tenho que estar como o fulano, que já mora sozinho, ou igual ao beltrano, que está viajando o mundo, ou ao ciclano, que com a minha idade já está feliz e casado? Por que eu tenho que ser igual a alguém, e por que diabos eu precis ficar comparando a minha vida, as minhas escolhas e os meus sonhos aos dos outros?

Minha terapeuta me disse outro dia que a única pessoa a quem a gente deve se comparar é a nós mesmos. Eu sou melhor hoje do que eu era há um ano ou dois? Estou numa posição melhor, me tornei uma pessoa mais sábia, mais prudente, mais esperta? Eu cresci, à minha própria maneira?

E a resposta é... sim. Sim pra tudo. Sou uma pessoa diferente, e melhor do que fui no passado. Quantas vezes eu sonhei em chegar onde estou agora, e fazer as coisas que fiz, em ser quem eu sou? Isso é vitória, é avanço. Não fiquei para trás de nada nem de ninguém. Não é uma competição. A linha de chegada é diferente para cada pessoa. E a minha...

Bom, eu não sei onde está a minha. Mas sei que, no tempo certo, eu chego até lá.

MEU NOVO LIVRO ESTÁ EM PRÉ-VENDA!

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Esse tal destino

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Você acredita em coincidências? Estava falando sobre isso outro dia com as minhas amigas, sobre a felicidade das pequenas coisas que nos uniram e nos trouxeram até onde estamos hoje. A vida é um emaranhado dessas coincidências.

Por exemplo, muitas foram as coisas que me trouxeram até esse texto hoje. Precisei começar uma campanha no Padrim, por exemplo. Antes disso, precisei ficar desempregada, sentir o aperto no bolso. Mas, para ficar desempregada, precisei primeiro ter um emprego que pudesse perder. E, antes disso, a vontade de trabalhar que me levasse até esse emprego. Vontade essa que só surgiu porque, uns anos antes, eu estava desmotivada com a escrita depois de uma sequência de acontecimentos ruins. Que só existiram porque eu comecei essa carreira -- carreira esta que começou graças a uma dica de uma amiga, que conheci na internet, no fórum daquela que seria, dez anos depois, a minha editora. O mundo dá voltas, e eventualmente, essas voltas nos colocam onde era pra gente estar.

Isso significa que, se as coisas acontecessem de outra forma, se eu desviasse desse caminho por uma fala ou uma decisão, nada disso teria acontecido? Talvez não. Mais do que em coincidências, eu acredito em destino: aquele que a gente faz para nós mesmos todos os dias, escolha após escolha, um passo atrás do outro, e também aquele do qual não podemos escapar. O plano de deus, se você acredita nisso, ou simplesmente aquilo que era pra acontecer

Em algum ponto, acho que era pra eu chegar até aqui, e, chegando aqui, eu alcançaria você. Se traçarmos nossos caminhos de trás pra frente, talvez a gente encontre aquele momento exato que decidiu que esse caminho que trilhamos juntos era mesmo pra acontecer. Talvez não. Talvez, seja tudo só uma grande coincidência.

Liberdade

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A liberdade tem muitas formas. Tem muitas caras. Ela não é a mesma pra todo mundo -- e muitas vezes, sequer é a mesma para nós, através dos tempos.

Aos dez anos, liberdade para mim era não ter lição de casa. Era poder passar a tarde inteira brincando, assistindo TV, lendo. Liberdade era não ser forçada a brincar com a minha irmã, era não ter um horário pra dormir nem um horário pra acordar. Eram as férias, os dias soltos de verão em que eu passava horas na piscina no sítio do meu tio. Liberdade sequer era uma palavra que eu conhecia, mas cujo significado eu já imaginava conhecer.

Aos dezoito anos, ser livre era não ter cobrança. Significava poder dirigir, poder beber, ser dona do meu próprio nariz, ainda que, naquela época, eu não fosse dona verdadeiramente de nada. Liberdade era sair de casa às 23h pra voltar só às 7h da manhã do dia seguinte. Era encher o peito para dizer que eu era adulta, mesmo sem saber exatamente o que aquilo queria dizer. Liberdade era um conceito conhecido e que eu imaginava já possuir por completo.

Hoje, aos quase 26, acho que liberdade é uma coisa diferente. Pra mim, liberdade é o direito de ir e vir, de existir, de falar e de pensar; é uma coisa tão complexa e ao mesmo tempo tão simples, que me choca que tanta gente não a possua. A Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que todos os homens nascem livres, mas não é bem verdade, é? Alguns são mais livres que outros, por privilégios, por contextos sociais. Para mim, liberdade é o que cabe na realidade de cada um, ainda que por ora: é cometer meus próprios erros, e crescer no meu próprio tempo, e viver da maneira como eu acho adequada. Liberdade é viver. 

Mas, antes de perguntar o que é liberdade pra você, eu te pergunto:

Você é livre?

Sobre ler

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Uma das coisas que mais me encanta sobre ser escritora é saber como é ser leitora. E não existe nada melhor do que ficar preso em uma boa leitura.

Tenho certeza de que vocês sabem como é a sensação; começa fácil, descompromissado. Você diz "vou começar esse livro aqui", talvez com expectativas boas, talvez sem conhecer nada do enredo. Abre o livro ou destrava seu kindle, arranja um lugar confortável pra sentar, e se deixa cercar pelas primeiras páginas.

Se você tiver sorte, é aí que as coisas ficam boas. Você se propõe a ler só algumas páginas, mas quando vai ver, já se passaram seis capítulos e você não se lembra mais do próprio nome. Você completamente dominado por aquela história e seus personagens, e os conflitos deles, tão mais complexos e interessantes do que qualquer coisa que você já tenha experimentado na vida, já são os seus conflitos. Você talvez já tenha escolhido um lado, já tenha preferido um casal, rido alto de alguma piada ou simplesmente de nervoso.

Então, se você for que nem eu, um livro deixa de ser só um livro. Você discute em voz alta com ele, responde os personagens como se falassem com você. Os acontecimentos inesperados e cada plot twist que ferra com a vida do seu personagem preferido se torna uma ofensa pessoal. Você até tenta largar o livro pra ir fazer alguma outra coisa, mas descobre que agora é tarde demais pra tentar ter uma vida: você PRECISA terminar de ler. Então se conforma em não fazer mais nada o dia todo até terminar aquela história.

E quando você termina... ah, quando você termina, é como se tirassem um pedaço seu. Você sente que perdeu um amigo, um ente querido, mas ao mesmo tempo, se o final for bom, você fica feliz por eles terem ido embora -- o sofrimento acabou. Então você passa uns dias de ressaca, lembrando daquela história como quem lembra de uma memória muito boa, e torce pra que o próximo livro seja tão bom quanto este.

Não sei em quantas pessoas nem se já causei essa sensação com as minhas histórias. Mas, se eu tenho uma meta, um sonho, um objetivo, é esse: que alguém, em algum lugar, esqueça da vida e de quem é por algumas horas enquanto lê algo que eu escrevi, e que eu seja uma memória maravilhosa um dia sobre uma história inesquecível que ela sempre vai recomendar pra alguém. Como autora, não tem recompensa maior.


(auto)conhecimento

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Nós nunca conhecemos ninguém de verdade. Você pode passar uma vida inteira com alguém, e ainda assim, se surpreender com as coisas que descobre dia após dia.

Esse é um dos ensinamentos da minha mãe que mais carrego comigo. Sempre que eu penso que entendo completamente alguém, faço questão de me lembrar que seres humanos são complicados, e que tempo nenhum é capaz de fazer com que a gente compreenda alguém 100%. E, de uns anos pra cá (ou talvez mais especificamente nos últimos meses) estendi isso para se aplicar a nós mesmos.

Nós nunca nos conhecemos de verdade. A gente passa a vida inteira sendo a gente, e mesmo assim, nos surpreendemos com as coisas que descobrimos dia após dia.

Eu sei que parece esquisito, mas pensa bem: o quanto você é consciente das suas ações, das suas qualidades e defeitos, assim como é com os outros? Se eu te pedisse agora para enumerar as características marcantes sobre o seu melhor amigo, você poderia listar várias, porque provavelmente passou algum tempo prestando atenção e aprendendo com e sobre ele/a pra desenvolver a relação que vocês tem agora. Mas nós fazemos isso com nós mesmos? Será que a gente gasta esse mesmo tempo prestando atenção nas coisinhas que tornam a gente a gente pra desenvolver nosso próprio relacionamento com nós mesmos?

E qual é a medida certa pela qual a gente mede quem nós somos? Somos as nossas atitudes, sem desculpas ou amarras, ou somos uma consequência do que foi feito conosco, da maneira como fomos criados? Quanto de mim é autêntico e quanto é um reflexo de quem convive comigo? E quem pode garantir que eu não terei, um dia, uma reação aparentemente atípica, dependendo do contexto ou da situação -- quem sabe um dia eu me torne uma pessoa diferente por outras circunstâncias, ou aja contra coisas que um dia eu acreditei porque acreditar em uma coisa e efetivamente fazê-la são coisas bem diferentes? Quem garante que eu sei o bastante sobre quem eu sou pra poder garantir que eu serei essa pessoa que eu acredito ser até o fim da vida?

É uma percepção estranha, mas também muito libertadora. Porque a partir do momento em que a gente entende que não se conhece, pode começar a tentar. Passa a prestar atenção em si mesmo, no mundo à sua volta, e em tudo que torna cada um de nós como é. Passamos a ser nossos melhores amigos. E quem sabe olhar para si mesmo com atenção seja o primeiro passo para poder olhar pro outro de verdade, e se deixar ser olhado em troca. Vai ver, minha mãe estava errada: você pode, sim, conhecer tudo sobre uma pessoa. Mas talvez precise conhecer tudo sobre você primeiro.

Ponto final

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Eu não sei mais onde acaba o começo e começa o fim. Parece que já faz uma eternidade que os meios tomaram pontos finais e as vírgulas se tornaram interrogações. Talvez faça mesmo. Talvez tenha sido ontem.

Não foi sobre as cartas não lidas, as mensagens não respondidas, nem sobre as vezes em que encarei o vazio. Foi sobre o todo e sobre nada em particular. Foi sobre nós. Sobre mim.

De você, guardo as letras num papel, as fotos que não quero mais ver, as musicas que não consigo mais ouvir e os textos que um dia eu lerei com saudade do sentimento que não tenho mais. Guardo as lembranças e a parte boa, que é tudo que posso guardar. O resto é história, daquelas que a gente não conta porque não vale mais a pena. Vai ficar pra outra hora, pra outro alguém, outra vida. Já foi.

Não sei o que você guarda de mim, nem com que entonação fala ou pensa meu nome - se é que pensa. Um dia, daqui um mês ou um ano, vou virar história na sua boca, aquela garota que um dia conheci e hoje não sei mais quem é. Não deu certo, ou deu até não dar mais.

Virei a página sem nem saber como nem quando, encerrando um capítulo longo com final entreaberto. A história continua. Todos somos histórias, no fim. Com nós dois não poderia ser diferente.

Eu, Arte

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Semana passada, na terapia, minha psicóloga me pediu pra completar a frase "Eu sou..." com as primeiras palavras que me viessem à mente. Incluí uma série de coisas, algumas menos espontâneas do que outras, e ali no meio, estava aquela feridinha incômoda que sempre me acompanha:

Eu sou... bonita. (às vezes)

Ela me pediu pra explicar os parênteses, e passei alguns minutos tentando colocar em palavras coerentes a montanha russa de inseguranças que eu vivia com o meu corpo. Como é se sentir bonita apesar de algumas coisas, e não por causa delas. Como estou caminhando, devagar e sempre, para o dia em que não vou viver mais em função do espelho. Infelizmente, não chegamos muito longe nesse debate. Papos para outras sessões.

Corta para o dia seguinte. Combinei com uma amiga de longa data e minha fotógrafa preferida de fazermos umas fotos para atualizar o portfólio dela e o meu material de divulgação. Costumávamos fazer sessões dessas todo ano, mas desde 2015 não tínhamos tempo pra uma das nossas tardes de Maitê e Isaac. E aí que, no meio do papo em que combinávamos os quandos e ondes, ela me faz o convite:

"E se a gente fizesse umas fotos mais sensuais?"

A intenção de fazer esse ensaio, digamos, menos convencional, era uma ideia antiga, um desafio pessoal para nós duas, eu com o meu corpo e ela como fotógrafa. Topei, mas na hora, me bateu aquele medo; ironicamente, não o de não ter coragem de posar, mas o de descobrir aquilo que eu sempre soube, internamente: que não sou sensual, nem desejável, e nada que eu faça pode mudar isso.

Como várias outras coisas sobre a minha relação com o meu corpo, essa questão do recato e da sensualidade/sexualidade também são pontos delicados. Aprendi a me esconder por hábito e segurança, por vergonha e por precaução. Recebi olhadas tortas o suficiente na rua, piadinhas e comentários grosseiros de todos os lados pra acreditar que não apenas ninguém queria ver meu corpo, mas que ele também não queria ser visto. Não vou entrar aqui em todos os detalhes dolorosamente chatos de como essa premissa estragou vários aspectos da minha vida. No fim das contas, restava uma verdade clara a ser testada:

Sim, eu amo meu reflexo -- ou pelo menos amo mais hoje do que já amei algum dia. Mas será que ainda iria amá-lo quando não houvessem roupas entre nós? Quando eu me despisse dos filtros e das roupas bem cortadas, da moda e do meu próprio olhar através da lente, eu ainda saberia achar o caminho pra gostar de mim mesma?

Foi a experiência mais engraçada, incômoda e reveladora que eu já vivi. Longe de ser um tipo de nu de Playboy, o que a gente fez foi se divertir com ângulos e poses, extravagâncias, músicas e pouca roupa. Fizemos, à nossa própria maneira, arte. E arte foi como me senti. Uma arte viva, em um longo processo de amadurecimento para me tornar obra-prima. Desabrochei na falta de decoro, na confiança de um olhar amigo, e, por que não, na insegurança do resultado. Não importava se ficaria bom ou não. A única a ver seria eu.

Tive vontade de chorar quando vi as fotos. Tenho vontade de chorar agora. Mas, não pela primeira vez, um choro bom, de quem deixou um peso que estava carregando para trás. Olhei pra mim, e me vi mulher. Me vi bonita. Me vi arte. Me vi eu. Tive vontade de mostrar pra todo mundo e ao mesmo tempo guardar aquele segredo a sete chaves, tão íntimo e real ele me parecia. 

Ainda não sei o que serão das fotos. Talvez o novo desafio seja deixar que elas vejam a luz do dia. Mas por enquanto, esse desafio basta. Hoje, não sou bonita nem apesar, nem por causa, nem às vezes.

Apenas sou.
 
Larissa Siriani | Copyright © Design por Naiare Crastt • Mantido pelo Blogger