O peso

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No escuro, na noite, ela chora. Abraça a si mesma. Espera passar.

De novo, não.

Inspira, expira. Inspira, expira. Como foi mesmo que a ensinaram todos aqueles anos atrás?

De novo, não. Eu não consigo.

Para dentro e para fora. Para dentro e para fora. Queria colocar tudo para fora. Se não sobrasse nada dentro dela, talvez parasse de doer.

Por favor, não, de novo, não.

Se estivesse vazia, talvez fosse melhorar? Se não sobrasse mais nada nela -- nem a comida no estômago, nem a pele sobre os músculos, nem os sentimentos travando a garganta -- talvez ela conseguisse voltar a respirar. Era difícil, assim, carregando o peso do mundo sobre os ombros.

Não posso, não posso, não posso, não vou.

Talvez ela devesse. Talvez, só mais um passo. Seria rápido. Ajudou antes. Pode ajudar agora.

Eu não consigo. É mais forte que eu.

Então para. Repete as mesmas palavras.

é
mais
forte
que
eu

Não é verdade, é? Se fosse mais forte que ela, já a teria levado há muito tempo. Se fosse mais forte que ela, ela não estaria aqui, ainda lutando, ainda barganhando. Não havia nada mais forte que ela. Nada capaz de derruba-la com tanta facilidade.

Inspira. Expira.

O ar volta pros pulmões. O choro seca na garganta. Aos poucos, e então de uma vez, ela respira.

Não existe nada mais forte do que ela.

Quem eu quero ser

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Eu constantemente me pergunto que tipo de pessoa eu quero ser. Já há algum tempo, descobri que essa é uma das melhores perguntas para se fazer com alguma regularidade. Muitos dilemas morais e coisas simples podem ser resolvidas com "que tipo de pessoa eu quero ser".

Mas já tem alguns anos que, mais do que "quem eu quero ser" passou a envolver também "quem eu quero ser para os outros".

É uma coisa doida, isso de servir de inspiração pra alguém. Eu passei muitos anos da minha vida buscando inspiração em outras pessoas, e como não encontrei exatamente onde me espelhar, fui criando meu próprio modelo a ser seguido -- primeiro na Maitê, depois em mim mesma. Eu não imaginava que, no meio disso tudo, em algum momento teria gente se espelhando em mim.

Isso criou um dilema complicado que todos os dias eu preciso combater. Porque sabe, quando é você por você mesmo, não faz diferença quantos erros você comete ou as cagadas que você faz; quando você adiciona a tudo isso uma camada de "mas o que isso diz pras pessoas que se espelham em mim", cria aquela sensação de que a gente não pode errar. Não pode fraquejar. Tem que sempre estar perfeita, sempre estar na linha entre o certo e o errado. E, o que pra mim é pior, cria aquela sensação de que você está vivendo duas vidas: uma, a sua, que diz respeito a você e a mais ninguém, e outra, que você monta pra que todo mundo veja e ninguém se decepcione.

Cansa, às vezes. E tem dias em que a linha é tão tênue que é difícil demarcar o que é pessoal e o que não é.

Preciso me lembrar constantemente que a pessoa que eu quero ser não deve explicações a ninguém, e que eu não sou responsável pelo que as pessoas pensam ou não de mim. Preciso me lembrar que o melhor que eu posso fazer é sempre viver a minha verdade, sendo honesta comigo e com quem está em volta, e que isso inclui, sim, errar e quebrar a cara, cair e levantar de novo. Preciso me lembrar que, nesse ínterim, em algum momento vai ter gente que não vai concordar com algo ou com tudo que eu faça, e tudo bem também. Alguns vão guardar suas opiniões, e outros tantos vão vocalizá-las para mim. Não há nada que eu possa fazer pra impedir.

Eu não sei quem eu quero ser para os outros -- nada, eu acho, se puder escolher. É responsabilidade demais para carregar. Mas sei exatamente quem eu quero ser para mim, e é a melhor versão de mim que eu puder. Quem enxergar isso, muito bem; quem não, uma pena. No fim do dia, a única pessoa a quem eu tenho que agradar sou eu mesma.

A terra, a neve e o coração

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Eu ainda me lembro do cheiro da terra quando saí do avião. Não deveria cheirar a terra, e se cheirasse, não deveria ser tão diferente, mas era. Tinha acabado de chover, o sol abrindo bem a tempo de o avião pousar.

Ainda me lembro de olhar tudo pela janela. Tinha aquela sensação engraçada de que tinha dormido num país e acordado em outro, mas eu não tinha dormido, tinha? Estava acordada há mais de vinte e quatro horas, perambulando pra cá e pra lá no quarto, no corredor apertado entre as poltronas, no aeroporto.Não era um sonho, mas talvez isso fosse pior. Era realidade; a minha realidade.

Também me lembro de entrar em casa pela primeira vez, de tropeçar nos degraus logo depois da porta. Lembro de abrir a porta do quarto e achar que ele cheirava a mofo, e sair achando que ele cheirava ao meu perfume. Ainda hoje, o cheiro do perfume me dá vontade de chorar. Tem dias que eu durmo e quando acordo, não sei onde estou, exatamente como naquela primeira noite. Às vezes eu espero acordar pro meu quarto do outro lado do mundo, da mesma forma como, lá, eu esperava acordar aqui.

Lembro dos amigos, dos sorrisos, dos abraços de chegada e de despedida. Lembro dos idiomas, da neve, do gosto fraco do café. Mais do que tudo, lembro da saudade -- lá, daqui, e daqui de lá. O coração de quem volta está perdido e partido para sempre. Nunca mais vou estar em casa.  Por menos que eu queira, talvez eu passe o resto da vida tentando me adaptar.

Mas se tem uma coisa que eu me lembro muito bem é como, no fim, se adaptar é fácil. Difícil mesmo é estar sempre fora de sintonia, estando aqui, mas com o coração em outro lugar.

Sorte

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Sorte. Não era uma palavra em que pensava com frequência para descrever a própria vida, mas ali, em silêncio, perdida naquele abraço, foi nisso que pensou. Que sorte.

Sorte de quê? Não soube dizer. Soube apenas que o sentimento lhe causou um frio na barriga, um tremor inexplicável e incontrolável nas mãos. Tinha sorte, talvez, por sentir, e saber que sentia -- mas que sorte era aquela se trazia sentimentos tão conflitantes, de querer ficar e fugir, querer rir e gritar, querer se fechar e se abrir? Que sorte era aquela, que vinha sempre com o medo?

Mas medo de quê?, se perguntou, e também não soube a resposta. De nada e de todas as coisas ao mesmo tempo. De recomeçar, sim, mas de encontrar o fim antes de entender o começo. De partir seu coração. De partir.

Suspirou no desenlace, guardou seus temores e entregou seu sorriso. Não dava para viver com medo do mesmo jeito como não dava para viver esperando a sorte chegar. Faria sua própria coragem, assim como agarraria sua própria fortuna. Rica já era; de neuras, sim, e de temores, talvez, mas também de sorrisos e encantos e desejos. Não podia calar a voz da consciência, mas podia deixar falar o som do coração.

O que tivesse que ser, seria.
 
Larissa Siriani | Copyright © Design por Naiare Crastt • Mantido pelo Blogger